quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Muricy.

Mal-humorado, ranzinza, implicante para alguns. Para outros, marrento mesmo. Para mim, um dos poucos, poquíssimos, que fogem à mesmice do futebol. Além de um puta técnico. Ou seja, não tem como eu não simpatizar com o Muricy.

Pois eis que essa semana, num programa desses de tv, o treinador com mais tempo de cargo no futebol brasileiro disparou: "Eu não vejo diferença nenhuma entre os jogos do Campeonato Italiano e do Campeonato Brasileiro." Se referia, basicamente, à qualidade do jogo, sem entrar nos méritos econômico, tático ou do talento dos jogadores.

Eu, que acompanho o futebol há mais de vinte e cinco anos, de perto há quinze, nunca assisti a tantas partidas quanto no último mês. Campeonato italiano, brasileiro, inglês, espanhol - até alemão e holandês - além da Champions League, filé dos filés da bola, a tudo eu assisti. E olha, o Muricy está com a razão.

Meus amigos, o que é ver a Juventus jogar... ou o Roma... ou o Milan... No Calcio, em geral, só assisti a jogos chatíssimos. Destoam a Inter, pela qualidade superior do elenco e pelo Mourinho, e o Napoli, surpresa até aqui. E só. O resto é de doer.

Na Inglaterra, onde o futebol hoje é o mais dinâmico no mundo da bola, dá gosto realmente ver o Manchester jogar. Sir Alex Fergusson troca as peças - muitas e boas - mas os diabos jogam sempre da mesma forma, pra frente, pelos flancos, valorizando o toque de primeira e aproveitando a velocidade de seus atacantes. O Liverpool tenta jogar parecido, mas não consegue. O Arsenal é jovem demais. O Chelsea, de Felipão, também dá sono, mesmo com tantos bons jogadores.

Na Espanha, o time que mais evoluiu nos últimos anos é dos mais chatos de se ver que há - o Villareal. O Real Madrid, dirigido por um alemão que foi craque mas não deixa de ser alemão, virou um time mecânico em que talentos como Gago e Higuaín não brilham e Robben fica no banco... E o Barça, esse sim, também dá gosto de ver. Não tem o ímpeto ou o estilo do Manchester, mas tem Messi.

Enquanto isso, por aqui, a imensa maioria critica horrores o Campeonato Brasileiro, "medíocre e nivelado por baixo". Associa de imediato a falta de dinheiro à falta de qualidade, pensamento raso e fácil. Esquece da essência do futebol - que não faz distinção entre um jogo de garotos de quinze anos e outro de profissionais de alto nível - pois o primeiro pode, perfeitamente, ser mais emocionante que o segundo.

Afinal, a emoção, no esporte, nunca dependeu só de talento.

* * *

Exemplo prático disso? O basquete americano. Os melhores do mundo estão na NBA. Mas é muito mais fácil assistir-se a um emcionante (e melhor) jogo na NCAA, o campeonato universitário.

Nem vou entrar no mérito tático, que exemplifica que o basquete dos garotos é mais bem jogado que o dos milionários - o primeiro se aproxima mais do europeu, com movimentação e troca de muitos passes, enquanto o segundo se baseia no individualismo e na criação de astros.

Eu me refiro simplesmente à emoção. Que pode ser muito maior num jogo entre Grêmio e Náutico, pela segunda divisão do nosso campeonato, do que num Juventus x Real Madrid, pela Champions League. Como o Muricy bem sabe.

* * *

Nessa semana uma notinha de jornal me chamou atenção, muita. Foi no O Globo de segunda, em que o editor de esportes do jornal, Antonio Nascimento, denunciava a agressão de Falcão a um jogador espanhol na final do mundial de futsal. "Uma cena covarde", palavras de Antonio. E foi mesmo. Por isso causou revolta nos adversários. E por conta da notinha, Falcão admitiria, na mesma noite de segunda, o que havia negado após o jogo e também na segunda pela manhã.

Foi inevitável lembrar-me da confusão na final do pólo aquático masculino do campeonato sul-americano que cobri em Mar Del Plata, em 99. Uma semana antes, em off, Coaracy Nunes, presidente da CBDA, nos havia dito que "os rapazes do pólo eram sua única preocupação". Na decisão contra os donos da casa, um dos bad boys do nosso time - que só tinha tipos assim, necessitando muito auto-afirmar a própria masculinidade - acertou um soco na nunca de um adversário. A porrada estancou na piscina, depois à beira da piscina, depois nas arquibancadas. Uma cagada.

Eu, acompanhado de uma repórter e um câmera que presenciaram a mesma cena, decido bancar a história como ela foi e ignoro o papinho de vítima dos nossos jogadores depois do jogo. Só que não havia a imagem do soco - assim como não havia foto ou imagem do soco do Falcão. Só o compromisso dos três com a verdade. Soa piegas, mas não é.

Por conta disso, meio time do Brasil quis tirar satisfações comigo no hotel. Chegaram a tentar intimidar (conseguiram) nosso produtor, um brasileiro residente na Argentina, que eles achavam ter a fita com alguma imagem comprometedora. Naquele mesmo saguão de hotel, os valentões se gabavam de seus socos aos berros.

Botamos nossa história no ar através de um audio-tape recheado de imagens de pancadaria generalizada na piscina. Mas sem a imagem do primeiro soco, que foi nosso.

Uma semana depois, de volta à tv, fui informado das várias pessoas ligadas ao pólo aquático que ligaram e até foram ao canal reclamar da nossa cobertura no caso.

Eu tinha pouco tempo de profissão e fui mandado pra Argentina na chefia da equipe. Não podia aceitar nada menos do que eu fiz - meu trabalho de jornalista. Como o Antonio bem sabe.

3 comentários:

Anônimo disse...

bela estréia, camarada. lembro mais ou menos de 1995. do ano, imagine do sul-americano de pólo aquático. mas, sobre o futebol, concordo. já reparou que nunca se falou tanta na "importância do torcedor" como se fala nos últimos tempos? talvez seja porque o futebol deixou de ser a arte em campo e passou a ser, quase só, a paixão na arquibancada. talvez. se juntarmos os 22 melhores jogadores, o amistoso entre eles será um saco. mas o meu time medíocre disputando a libertadores ou se agarrando à primeira divisão mantém vivo esse jogo. talvez o discurso do gremista peninha tenha sido profético esse tempo todo. voltarei sempre.

Anônimo disse...

Camarada,

Sobre o Polo Aquático eu não me lembro realmente do ano, mas não foi em 95. A cidade foi sede do Pan-Americano em 95. Agora sobre a agressão, o you tube me lembrou da ironia dos brasileiros. A sonora do Michel vai de encontro com o seu texto. Muita ironia da parte dele. Segue o endereço do vídeo.
http://www.youtube.com/watch?v=OBD55u05gWg

Edu Mendonça disse...

Tem toda razão, camarada - foi em 99 esse sul-americano, obrigado. E o vídeo, com o sujeito dizendo que foi uma "cotovelada sem querer" e a imagem mostrando um soco dele em cheio na cara de um argentino, é prova da cara-de-pau (ou covardia?) daquele time todo.