terça-feira, 7 de setembro de 2010

7 de Setembro, Um Brasil Bem Na Foto - Depende Do Ângulo Que Se Vê.


Nos últimos três anos, a seleção brasileira teve três jogos realmente importantes, jogos que valiam muito para o futuro do basquete no país. Eu estava presente nos três (e antes que me chamem de pé-frio, eu estava na Coréia do Sul quando conquistamos o penta e em Lisboa quando Guga levantou a Masters Cup – então, o problema não sou eu, definitivamente).

O primeiro deles foi em 2007, em Las Vegas, contra a mesma Argentina de hoje. Como já escrevi aqui, lideramos o placar durante boa parte da partida, mas perdemos no fim. O segundo, no ano seguinte, em Atenas, também valia vaga para os Jogos Olímpicos de Pequim. Diante da Alemanha de Dirk Nowitzki, no entanto, em nenhum momento jogamos realmente bem e perdemos por treze pontos no fim.

Hoje, contra a Argentina, o retorno não estava em jogo (aqui em Istambul, apenas o campeão mundial se classifica para Londres 2012). Mas num plano mais amplo, era a chance da afirmação para uma geração que não somente já deveria ter duas olimpíadas no currículo, como começa a virar piada para o torcedor comum, que se acostumou com o fato de que a) nunca mais ganhamos nada importante, b) não aparecemos mais na tv aberta, em nenhum âmbito e c) não participamos, com o time masculino, há três edições da maior festa do esporte.

Pressão? Imagina...

Pela frente tínhamos só a base da geração que foi prata no mundial de 2002 e ouro olímpico em Atenas 2004 (além do quarto lugar no mundial de 2006). Que, mesmo sem Ginóbili e Nocioni, ainda é um dos times mais respeitados (e mais time) do mundo.

E o que fizemos?

Começamos com Splitter no banco e Guilherme marcando Scola, para surpresa geral da nação. Uma decisão surpreendente e interessante de Rubén Magnano, que decidiu sacrificar um para poupar o outro. Scola fez sete pontos em dois minutos, Guilherme saiu com duas faltas com pouco mais de dois para o fim e Delfino, mesmo marcado por Alex, fez a festa da linha dos 3, com nove pontos no período – mesmo número do capitão argentino. Pra nossa sorte, Leandrinho e Huertas, inspirados no ataque, fizeram dez cada. E o quarto terminou 25 a 25. Um bom começo.

Magnano só trouxe outra cara nova do banco a cinco minutos do fim do segundo quarto, quando trocou Alex por Marcelinho – a Argentina, à essa altura, vencia por 34 a 30 e Sergio Hernández também só havia utilizado sete jogadores. Aí nosso técnico trocou Huertas – que já fazia uma partida estupenda – por Nezinho... Guilherme pegou a terceira falta... E a coisa só não desandou porque Marcelinho nos manteve no jogo com duas boltas de 3 e Magnano trouxe Huertas de volta rapidinho. Nosso armador fechou o primeiro tempo com um lance de quatro pontos que levantou a torcida brasileira, espalhada pelo ginásio, e a turca, que nos apoiava. Se a atuação dele, sua melhor pela seleção (18 pontos!), nos enchia de esperança, as três faltas de Leandrinho preocupavam, mesmo com a vantagem no intervalo – 48 a 46. Jogão. Jogaço.

Por conta disso, Magnano voltou para para o segundo tempo com Marcelinho em seu lugar e Splitter no de Guilherme. Como é bom ter alguém como ele no comando. Chegamos a abrir sete no placar. Mas pecamos ao continuar deixando Delfino jogar – e jogou muito o armador argentino hoje. Talvez por isso, Magnano só tenha posto Leandrinho de volta a um minuto do fim do quarto, que terminou empatado por 66 a 66.

Aí no último.. prefiro ir logo para os minutos finais. Porque faltando 3:15, nós perdíamos por apenas dois - 81 a 79 - quando permitimos que Scola, o dono do jogo, fizesse 6 pontos seguidos. Ora, todo mundo sabia que, na hora da decisão, o negócio seria pará-lo, não? Quatro dias focando nisso, treinando isso, pensando em como, com quem... E ele ainda faria outros quatro depois, para terminar com 37. E chutando 14 de 20 bolas, sem um único erro no último quarto.

Nós? Bem, nós desperdiçamos uma bola tola com Leandrinho, faltando 44 segundos, quando perdíamos por três. Quem a roubou? Scola. Que abriria cinco no ataque seguinte, selando o destino da partida - que terminou com a vitória deles por 93 a 89. Não foi só o erro do Leandro, claro. Embora ele realmente tenha tido um peso absurdo - ali, estávamos no jogo, quando ele se enrolou e perdeu a bola, não estávamos mais. Mas o que fica marcado, de novo, é que temos um bom time que ainda não sabe decidir seus jogos. Foi assim que deixamos de virar manchete mundial contra os EUA, foi assim que deixamos de vencer os Eslovenos - o que teria nos feito jogar contra a fraca Austrália nas oitavas - e foi assim que perdemos hoje.

Fracasso? Depende do ponto de vista. Não para mim.

Jogamos bem nossas últimas quatro partidas no mundial. Tivemos a afirmação de Huertas como o comandante da equipe em quadra - hoje ele foi um monstro, com 32 pontos. Demos mais um passo no desenvolvimento de jogadores como Varejão e Splitter. E Magnano teve a chance de conhecer este grupo, saber com quem pode e com quem não pode contar daqui pra frente.

Há o outro lado, claro. O mesmo Huertas, hoje, só deu duas assistências. E apesar de ter parecido frio como gelo (hoje realmente foi), mostrou aqui em Istambul ainda se desequilibrar com certa facilidade por conta de erros de arbitragem e, principalmente, dos companheiros. Splitter, tão alardeado pelo ótimo trabalho na Espanha, ainda está a léguas de ser um pivô dominante - nem mesmo na defesa ele é. Ânderson, peça importantíssima desse grupo, acabou prejudicado pela torção no tornozelo. Leandrinho fez um péssimo mundial e precisa aprender a pensar antes de executar, principalmente nos momentos decisivos. Marcelinho, Alex e Guilherme deixaram claro para o técnico argentino que são nomes fixos para o restante do ciclo olímpico. Já Nezinho, Murilo, Marquinhos e J.P. certamente não impressionaram o treinador.

Então o que fica deste 7 de setembro de mais uma tristeza para o basquete brasileiro?

Fica o orgulho de termos jogado bem, sim, contra um dos melhores times do mundo, que é a Argentina. Fica a lembrança boa do que fizemos contra os americanos e a ruim do que poderíamos ter feito contra a Eslovênia. E fica, sobretudo, a esperança de que haja continuidade no treinamento e formação dessa seleção sob a batuta de Rubén Magnano, o homem que pode nos levar de volta aos bons tempos do nosso basquete.

O resto é o resto.

O jogo é jogado. Um ganha, outro perde.

O importante é sair de cabeça erguida de quadra, como fizemos hoje.

4 comentários:

Cláudio disse...

Perfeito! Só adiciono dois detalhes: na hora decisiva, banquinho pro Leandrinho. Não adianta. Você cobrou no texto e eu aqui de casa durante todo o mundial. Ele não pensa, portanto, no momento em que pensar é imprescindível, que ele sente um pouquinho pra aprender. E não entendi o Marquinhos em quadra durante todo o quarto período. De resto, parabéns a todos! Excelente jogo, excelente campanha!
Cláudio Francioni

Anônimo disse...

eh isso ai. agora vai chover de gente dizendo que continua tudo errado, que tah tudo uma droga. nao eh por ai. jogamo pacas, hoje nem deus parava o scola.

Anônimo disse...

soh acho que mesmo assim vareja e spliter ficaram devendo. e ele podia ter usado mais o marcelinho no fim.

Edu Mendonça disse...

Pois é, Cláudio, o Magnano chegou agora, tá conhecendo as peculiaridades de cada um... De repente, na próxima, deixa o Leandro no banco e aposta no Marcelo, mão e cérebro mais certeiros pra essas horas. Quanto ao Marquinhos, só posso acreditar que foi por ter perdido o Guilherme com 5 faltas. Não gosto dele desde o papelão que fez em Las Vegas. Abs!