sexta-feira, 8 de abril de 2011

"Why can't I be MVP?"

Dezenas de repórteres que o cercavam, naquela tarde gelada de media day em Chicago, antes do início da temporada, se entreolharam. Nenhum chegou a rir - afinal, estavam diante de um dos jogadores mais afáveis e gentis de toda a liga - mas, internamente, todos se perguntaram - "como assim 'por que eu não posso ser o MVP?'"

Quando soube, achei graça. Eu, torcedor fanático dos Bulls desde o tempo em que Michael Jordan perdia ano após ano para Celtics ou Pistons. Que torci como louco, no draft de 2008, para que meu time escolhesse aquele armador veloz como a luz, que havia perdido a decisão do título nacional universitário meses antes. Eu, que havia assistido a cada um dos 171 jogos de sua carreira até aquela tarde, achei a pergunta desmedida.

"Mas o que deu na cabeça do moleque pra falar uma coisa dessas?"

Só o chamo assim. Até minha mulher, hoje: "Como foi o moleque ontem?" Que fique claro - não há nada de moleque Neymar nele. Pensando bem, talvez não haja mais nada de moleque nele, nada que faça lembrar o garoto de 20 anos que realizou o sonho de vestir a camisa do time de infância, da cidade onde nasceu e cresceu. Todo jogador, quando é apresentado à torcida antes de uma partida, tem seu nome, número, posição e universidade onde jogou anunciados pelo locutor do ginásio. O moleque não. Pediu, desde a primeira vez, para que fosse diferente com ele. A universidade de Memphis não é lembrada.

"FROM CHICAGO... AT GUARD... NUMBER ONE... DERRIIIIICK ROOOOOSE!"


Voltando à pergunta que dá título ao post, voltando no tempo, recupero frases, mensagens trocadas com amigos e colunas dos chamados experts sobre a atual temporada, que se aproxima dos playoffs. Mesmo minha modesta previsão parecia exagerada - chegar à final do Leste e, quem sabe, com sorte, à final. Só que, antes da bola subir, ninguém em sã consciência botava os Bulls acima de Celtics, Heat ou Magic. E todos viam a tal pergunta como um devaneio de um garoto que começava a descobrir estar acima da média em sua profissão.

Hoje os Bulls asseguraram a primeira colocação do Leste, com 59 vitórias e 20 derrotas, ao vencerem o Cleveland. Não podem mais ser alcançados por ninguém. E ainda têm chance de terminar a temporada com a melhor campanha de toda a liga - estão só uma derrota atrás dos Spurs. Ao fim do jogo contra os Cavs, ninguém comemorou um centímetro a mais do que noutro jogo qualquer.


"Ele é o jogador mais consistente do nosso time. Defendendo, jogando machucado, jogando sério sempre. Esse ano, ele tem meu voto para MVP."

O moleque não é o personagem da frase. É o autor. Fala sobre o companheiro Luol Deng, o mais bem pago do time até a chegada de Boozer, há sete temporadas defendendo os Bulls. Um elenco heterogêneo, entretando harmonioso. E, acima de tudo, solidário. Seja num passe extra, numa ajuda na defesa ou numa entrevista, é evidente que o clima entre os jogadores lembra a camaradagem de uma equipe de colégio, não de profissionais com salários milionários e que, via de regra, pensam primeiro em si quase sempre. Completa a receita um técnico estreante - mas de longa estrada como assistente - e que teve seu mantra comprado sem receios por seus comandados: defesa. Os Bulls têm a melhor da NBA, ocupando a segunda posição em pontos cedidos e rebotes, além de terem a melhor campanha em casa (35-5) e a melhor média de diferença de pontos sobre os adversários (7,3). Números que têm tanta relação com os talentos individuais do elenco quanto com o suor deixado em quadra, sob o incentivo dos gritos roucos do técnico Tom Thibodeau.


"Não é por coincidência que os Bulls têm a melhor campanha do Leste. Eles estão jogando com mais aplicação que qualquer outro time e isso tem relação com sua campanha. E vem tanto de Tom (Thibodeau) quanto de Derrick Rose." - Doc Rivers, técnico dos Celtics.

Mas Thibodeau, lembrem-se, é um novato. Nunca foi head coach. Por mais que seja um nome reconhecido e respeitado na liga, sua demanda constante por esforço na defesa, somada à voz rouca como um Louis Armstrong, poderia facilmente cansar a beleza de atletas que, não raramente, se comportam como prima-donas. Poderia, se o melhor do time não fosse o primeiro a entregar-se de corpo e alma ao comando do treinador. Como na época de MJ, se o astro dá cem por cento nos treinos e nos jogos, sem jamais reclamar, quem há de agir de maneira diferente?


Ainda assim, os números individuais do moleque não são estratosféricos. Cerca de 25 pontos, oito assistências e quatro rebotes de média. Inferiores, por exemplo, aos de LeBron James, eleito MVP nas duas últimas temporadas. Mas números (no basquete, principalmente), não contam toda a história. Os Bulls começaram a temporada sem seu maior reforço, o ala Carlos Boozer. Pouco depois de sua estreia, perderam sua alma, o pivô Joaquim Noah. Recentemente, ambos, tiveram que lidar com torções de tornozelo, que os deixaram de fora por mais alguns jogos. Em todos eles, qual fosse a ausência, lá estava Derrick Rose, pronto para fazer o necessário para conquistar a vitória. Cinquenta e nove até aqui.

Há quem defenda que LeBron deveria levar o prêmio novamente. Há os que consideram Dwight Howard, do Magic, mais eficiente que Rose. Para alguns, o moleque seria apenas uma versão aprimorada e um pouco mais alta de Iverson. "Ele não chuta tão bem". "Não distribui tantas assistências". "Pontua demais para um armador".

Nesta temporada, o moleque foi o único entre os dez primeiros em pontos e assistências. Adicionou a seu repertório ofensivo um arremesso de três pontos respeitável - e que se tornará mais consistenta com o tempo. E foi "o" ataque do time quando preciso. Sempre com toda a equipe adversária concentrando sua defesa sobre ele - notoriamente, estes Bulls não têm muitas opções de ataque. Por isso mesmo Thibodeau deu sempre liberdade a Rose para arremessar, sabedor que é das capacidades e deficiências de seu grupo, recheado de bons defensores, como Gibson, Brewer, Bogans, Asik e um ou outro especialista, como Korver. O moleque precisou ser o ataque em muitas noites. E em todas elas, como armador do time, foi sempre quem tomou as decisões ou chamou a responsabilidade para decidir ele mesmo. Como mostra a campanha dos Bulls, acertou muitíssimo mais que errou.

Por fim, ninguém, hoje, no mundo, consegue ser mais veloz driblando uma bola de basquete do que o moleque. Não se trata apenas do talento nato, nem da aplicação absurda aos treinos. Derrick é uma aberração, dono de velocidade e impulsão nunca reunidas num mesmo atleta. E está só aprendendo a unir tudo isso a seu favor. Aprendendo rápido.

Então, se alguém me perguntar, eu direi: ninguém jogou mais nesta temporada que Derrick Rose. Aos vinte e dois anos, se tornará o mais jovem MVP de todos os tempos. E tem tudo para escrever, com esses Bulls, uma história de Cinderela poucas vezes vista na liga.

O moleque, claro, é o sapato de cristal.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Futebol, TV, Dinheiro e Uma Boa Briga

O próximo onze de março, uma sexta-feira, não terá futebol. Mas pode ser a data de uma mudança histórica, com consequências para todo e qualquer envolvido com a maior paixão popular do país, seja boleiro, técnico, jornalista, dirigente ou torcedor.

Às dez horas da manhã deste dia, se encerrará o prazo para que as emissoras interessadas enviem suas propostas para a aquisição dos direitos de transmissão dos Campeonatos Brasileiros de 2012, 13 e 14. A abertura dos envelopes - a licitação feita pelo Clube dos 13, publicada ontem, prevê ofertas fechadas - será feita em solenidade pública aberta à imprensa. Mas eu duvido muito que alguma rede de tv se interesse em mostrar ao vivo o resultado. Ou, talvez, apenas uma, como explicarei adiante.

Para situar quem não acompanha os bastidores - felizes daqueles que só sabem da bola - vale um rápido resumo. Há vinte e seis anos a TV Globo transmite o futebol brasileiro. Desde 1987, negocia os direitos de transmissão diretamente com o Clube dos Treze, que reúne as principais equipes do país. O contrato atual, que se encerra ao fim desta temporada, custou aos cofres da emissora (na verdade, aos seus anunciantes) a bagatela de 250 milhões de reais. Na negociação, feita em 2008, a TV Record chegou a acenar com uma proposta escandalosamente alta, em torno de 700 milhões. Mas tirou o time, na última hora, acusando o Clube dos 13 de dar à concorrente um direito de preferência que a impedia de vencer.

Só que, agora, tudo vai ser diferente. Como foi, aliás, quando da compra dos direitos de transmissão dos Jogos Olímpicos de Londres, adquiridos pela emissora do bispo por 60 milhões de dólares. O Cade - Conselho Administrativo de Defesa Econômica, que tem como função orientar, fiscalizar, prevenir e apurar abusos de poder econômico - está de olho em tudo. E na reunião marcada para a próxima terça com dirigentes do Clube dos 13, reafirmará, entre outras coisas, que não permitirá qualquer benefício a A, B ou C.

O Clube dos 13 estipulou a oferta mínima em 500 milhões de reais anuais, dando à TV Globo, como bônus, uma vantagem de 10% sobre as demais ofertas - uma espécie de "obrigado" pelos serviços prestados nas duas últimas décadas. O que, para mim, já parece um benefício.

OS CLUBES

Desde 87, ano de sua criação, o Clube dos 13 se viu diante de uma complicada equação matemática - como dividir o dinheiro dos direitos de transmissão entre clubes de tamanho, peso, torcida e prestígio tão diferentes. Como em qualquer divisão de bolo, todos querem a maior fatia. Hoje, Flamengo, Corinthians, São Paulo, Vasco e Palmeiras recebem o mesmo tanto. Que é superior ao destinado ao Santos. Que ganha mais que Fluminense, Botafogo, Inter, Cruzeiro, Grêmio e Atlético Mineiro. Os demais integrantes estão num patamar ainda inferior.

Por conta dessa divisão, a semana que se encerra foi pontuada por ameaças, bravatas e, principalmente, voltas atrás. Os quatro grandes do Rio chegaram a anunciar, oficialmente, a saída do Clube dos 13, afirmando a intenção de negociar, em grupo, seus direitos de imagem. Voltaram atrás no dia seguinte, quando negaram a desfiliação. O Corinthians, por sua vez, continua com a posição de desligamento. Chegou, inclusive, a conversar em separado com a TV Record. Mas também não saiu do Clube.

O motivo é simples - dinheiro. Imaginaram um cenário em que a negociação em separado os beneficiaria. Com o passar dos dias - e as consultas jurídicas e econômicas - viram que sair não seria tão fácil. Além de, provavelmente, não tão lucrativo. Num novo contrato, por exemplo, o Fluminense passaria dos 23 milhões atuais - mesma quantia recebida pelos grandes mineiros, gaúchos e pelo Botafogo - para 36 milhões. E isso, considerando-se apenas o dinheiro da tv aberta - pela primeira vez, plataformas como a tv fechada, internet e celular serão negociadas separadamente. Alguém em sã consciência consegue imaginar o Flu conseguindo arrancar 36 milhões anuais de Globo ou Record por seus jogos?

Fora isso, ainda há a questão do conceito de direito de imagem em si. Se um clube fecha com determinada emissora, esta só pode mostrar seus jogos se os seus adversários também tiverem fechado com ela. Do contrário, a transmissão se inviabiliza. Se o Flamengo fechasse com a Globo e o Corinthians com a Record, não teríamos os dois jogos entre os clubes na TV. O ponto final é dado pelo próprio Cade, que não autorizou a livre concorrência para cada clube e sim para o campeonato inteiro.

Some-se a isso tudo o curto tempo até a abertura dos envelopes, coisa de pouco mais de duas semanas, e fica a quase certeza de que toda a movimentação dessa semana não passou de alvoroço de dirigentes embevecidos com tantos cifrões.

AS TVS

Entre os que defendem a manutenção do futebol na TV Globo, os argumentos principais são a audiência e qualidade de transmissão superiores da emissora carioca.

A mesma que me faz, às quartas-feiras, sair do estádio já na quinta, para acordar morto de sono, poucas horas depois. Hoje, o futebol de meio de semana começa às 22h, horário só praticado no Brasil e totalmente incompatível com qualquer conceito moderno de marketing esportivo ou segurança pública.

A audiência, claro, é do futebol - e não da Globo. Para onde ele for, ela vai junto, pois ninguém vai parar de assistir aos jogos de seu time na TV porque o Galvão não os narra mais. O argumento restante - de que a audiência "não-futebol" da Globo será sempre maior, rendendo mais exposição aos anunciantes em seus programas e telejornais, também é questionável. As constantes reuniões de seus executivos preocupados com o crescimento da concorrente e com seus empregos servem de contra-argumento.

A questão do know-how chega a ser risível. Expertise e profissionais são adquiridos com muito mais facilidade que direitos de transmissão - e a Record teria um ano inteiro para isso.

O 11 DE MARÇO

Você já jogou poker? Domina a arte do blefe?

A mão começa em 500 milhões. Mas um dos jogadores tem um ás na manga que lhe dá 10% de vantagem sobre os demais. Que, na realidade, é apenas um - Band e Rede TV, apesar de convidadas, não entrarão nesta briga.

Quem tem o ás na manga depende do dinheiro dos anunciantes. Ganha muito, mas também gasta demais. Vive buscando maneiras de equilibrar seu orçamento e ainda lembra bem dos efeitos catastróficos da última grande crise. Só para mensurar o que significa pagar 500 milhões de reais por ano pelo futebol, basta dizer que o BBB 11, o de menor audiência mas de maior faturamento da série, rendeu 400 milhões de reais, o que foi considerado um resultado arrebatador.

O desafiante, que obrigatoriamente terá que oferecer 10% a mais para quebrar a mesa, também tem seu ás na manga. São milhões de fiéis. Talvez bilhões de reais em notas de dois, cinco, dez reais. Dízimo. Investigações do Ministério Público tentam provar que a origem do dinheiro não é legal e que TV e igreja, no fim das contas, são a mesma coisa.

E enquanto o MP não consegue seu objetivo, nada melhor para lavar uma inacreditável quantidade desse dinheiro de uma só vez que fazer uma oferta astronômica no próximo dia onze. Fala-se, hoje, em coisa de 700 milhões - mesma quantia da oferta retirada em 2008.

Não sei. Fosse eu, lavaria um pouco mais.

Porque essa é a chance que a concorrente espera há tempos. Um momento na história, que faz parte de um plano bem pensado e elaborado. Se Londres foi um soco no estômago, o Brasileirão seria um cruzado no queixo.

De levar à lona.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

R9

O ano era 1999, como na música daquele que um dia se chamou Prince. Confortavelmente apertado entre meus companheiros Sergio Costa e Andréa Bruxellas, seguia para Buenos Aires e, depois, Mar Del Plata, onde cobriria um Sul-Americano de Natação. Meu jornal já havia sido desmembrado entre os três, mas só a página de esportes interessava não somente a nós, mas a todos naquele avião. "RUPTURA DO TENDÃO PATELAR". Algo de que nunca ouvira falar. Tão aparentemente grave quanto as imagens do dia anterior, quando o joelho de Ronaldo havia "desmontado" no meio de uma arrancada. Entre infográficos - acho que esse termo ainda nem era usado na época - e opiniões de diferentes médicos, uma certeza: dificilmente ele voltaria a ser o mesmo, se voltasse a jogar futebol.

Três anos depois, em Seul, lá estava eu, no meio do bloco de carnaval que percorria os corredores do International Broadcast Center, curtindo com a cara de jornalistas argentinos, ingleses e, principalmente, alemães, enquanto cantava a plenos pulmões o penta conquistado com dois gols de Ronaldo na final.

Um dos baratos de se envelhecer, quando se é um jornalista esportivo, é começar a valorizar a chance de ter podido acompanhar, do início ao fim, carreiras como as de Ronaldo. Uma história bonita, repleta de tudo que um astro do rock, digo, futebol, pode querer. E que, por isso mesmo, termina com um quê de novela burlesca.

Ronaldo nos deu uma Copa, com oito gols em 2002. Nos tirou outra, com sua misteriosa convulsão antes da final em 98. Ou talvez duas, tendo sido o "Presidente" da turma do oba-oba e da balança em 2006.

E quem há de dizer que essa balança pesa contra ele, o maior artilheiro de todas as Copas e herói do penta?

Ronaldo foi três vezes eleito o melhor do mundo, numa época em que ser o melhor era estar acima de nomes como Zidane, Figo e Weah. Também por três vezes superou graves lesões nos joelhos, duas delas em joelhos diferentes, a tal ruptura patelar. E eu estava entre os que duvidaram de seu retorno ao campo em ambas, principalmente a segunda, há apenas três anos, quando o craque já tinha 31.

Ronaldo foi craque, sim. Da bola e do marketing. Se associou à gigante Nike como nenhum boleiro havia feito antes. Tornou sua imagem mundial. Tornou-se um ídolo mundial. O que só fez aumentar a repercussão de seus escândalos e desentendimentos, fosse com travestis, esposas ou até seu assessor. E tudo ísso apenas arranhou sua imagem.

Foi traidor não uma, mas duas vezes, no tortuoso caminho Barcelona-Internazionale-Real Madrid-Milan. Foi gênio no Barça, mas saiu. Ídolo na Inter, mas saiu - depois de quinze meses recebendo salários em dia enquanto se recuperava da lesão de 99. No Real, coexistou com galáticos mas não levantou as taças esperadas. No Milan, já era uma sombra de si. E ainda teve o Corinthians, onde foi decisivo para as conquistas de um Campeonato Paulista e uma Copa do Brasil. Mas saiu pressionado por uma chuva de moedas e críticas.

E assim sai do futebol. Quem há de dizer que sai tarde? (Cedo, certamente, ninguém).

Ronaldo foi até onde pôde. Chegou onde jamais sonhou.



Ponto final posto, resta discutir o verdadeiro lugar dele na história do futebol. Ronaldo entra, claro, diretamente no panteão dos maiores atacantes de todos os tempos. E aqui já me limito a eles, os atacantes, pois se abrir mais a lista, entrarão umas duas dúzias de craques na frente dele.

Tiro os títulos, os gols em Copas, os comerciais e a idolatria mundial. Fico apenas com a bola.

E aí, sou mais Romário. E, se fosse pro meu time, Marco Van Basten, em seus tempos de glórias e tornozelos inteiros.

Questão de gosto, pura e simples.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

The Twilight Zone

Nesta quarta, dois de fevereiro, milhões de rubro-negros - além de um bom bocado de torcedores de outras equipes - serão testemunhas de uma história com cara de episódio da série Além da Imaginação:

Ronaldinho Gaúcho, duas vezes eleito o melhor do mundo, pentacampeão mundial com a seleção brasileira, eleito o melhor jogador da década passada, estreia no Flamengo, no Engenhão, contra o Nova Iguaçu, pela quinta rodada do Campeonato Carioca.

Até ouço a inesquecível trilha de abertura enquanto releio o parágrafo acima.

Imponderável - não há Maraca - e questionável - o adversário de estreia - à parte, ninguém, absolutamente ninguém em sã consciência seria capaz de imaginar que, aos trinta anos de idade, Ronaldinho acabaria no Flamengo; não como Romário, que retornou ao Brasil, em 95, no auge, e sim como seu xará mais pesado e laureado, outro penta mundial que também preferiu pendurar as chuteiras por aqui.

Que Ronaldinho esperar? O genial, de 2004 e 2005? Ou o boêmio, de 2010 e... 2003. Já naquele ano, o técnico do Paris Saint Germain, Luis Fernández, meio-campo da seleção francesa durante uma década, criticava o brasileiro por conta de seu gosto exagerado pela vida noturna. Paris, Barcelona, Milão, 30 ou 23 anos, não importa - Ronaldinho não mudou com o tempo, não se deixou deslumbrar pelo sucesso. Ele sempre curtiu a fama da melhor forma possível. Quem se impressionou, agora, pelo oba-oba em torno de sua vinda para o Flamengo, pelas idas e vindas promovidas pelo irmão-empresário Assis, não deve se lembrar que, entre fevereiro e agosto de 2001 - oito meses, portanto - Ronaldinho ficou parado, impossibilitado de jogar, por conta da disputa judicial entre o Grêmio, time que ele abandonou, e o PSG.


Estes talvez também não lembrem que, em julho de 2008, há apenas dois anos e meio, era a torcida do Milan que vivia a expectativa que a nação rubro-negra vive agora. A mesma que toda a torcida brasileira viveu em 2006, no Mundial da Alemanha, quando Ronaldinho já não demonstrava interesse pelo futebol. Ou dois anos depois, nas Olimpíadas de Pequim, quando o Gaúcho, no meio de garotos, nenhuma diferença fez, selando de vez seu destino enquanto Dunga fosse o técnico da seleção. Acabou vendo a Copa de 2010 pela tv. Ou não. Ronaldinho sempre disse que não gosta de assistir a jogos de futebol (embora tenha estado nos últimos do Fla, sempre no camarote da presidente Patrícia Amorim).

Fadado ao fracasso, então?

Depende. Basicamente, de uma questão de vontade.


Ronaldinho conquistou tudo que um jogador profissional pode querer. Mas não conquistou tanto. Com a seleção, foi campeão do Mundo, das Copas América e das Confederações. Pelo Barcelona, foi eleito o melhor do mundo duaz vezes, campeão da Liga dos Campeões e espanhol. Por estas bandas, só o título gaúcho de 99.

Aos trinta anos, ainda poderia querer muito mais. A questão retorna: ele quer?

Porque o querer depende, basicamente, daquela vontade de ser o número um, estar sempre no topo. Como escrevi aqui em outro texto, trata-se daquela obsessão que une nomes como Jordan, Schumacher, Valentino e outros. Algo que, todos concordam, o Gaúcho perdeu pelo meio do caminho.

E se jogar no Barça um dia já não mais o motivou, se ser ídolo em Milão não fez sua cabeça, que oportunidade melhor para quem precisa de motivação do que jogar no clube de maior torcida do país? Ronaldinho não precisa ter nascido em Quintino, nem ser torcedor do Flamengo desde criancinha para saber o que significa defender suas cores, como o próprio disse, em sua apresentação.

E que chance melhor que estar num clube que se renova de esperança, após um 2010 pífio, quando todos ainda comemoravam o fim do jejum de 17 anos sem título brasileiro? Que situação melhor que estar sob o comando do treinador que o levou para a seleção brasileira? Tudo conspira a favor dele.

Basta querer. E é aí que a porca torce o rabo e eu tiro de campo minhas impressões como jornalista para explicar, através de meus quase trinta anos de arquibancada, aquilo que é mais importante Ronaldinho saber, a partir de amanhã:

Essa torcida não perdoa a falta de vontade.

Essa torcida ignora até a falta de talento se o sujeito deixar o sangue em campo. Perguntem a Willians, ou mesmo ao Toró, porque eles nunca foram vaiados (ou perguntem ao Juan, agora no São Paulo, como é cair em desgraça por conta da falta deste sangue).

Essa torcida elege ídolos eternos por conta da identificação com esse espírito, sejam eles vencedores, como Zico e Pet, ou nem tanto, como Romário (que quase nada conquistou pelo clube). Assim como não perdoa traidores, mesmo que, um dia, tenham se imbuído desse espírito (como Renato Gaúcho e Bebeto, por exemplo).

Eu, como profissional, me mantenho cético - assim como cético fui quando Adriano retornou, em 2009, e nós acabamos campeões brasileiros.

Eu, como torcedor, vou apoiar e incentivar qualquer um que vista o manto. E vaiar e cobrar e exigir daqueles que não entendem o que é defender o Flamengo.

* * *

Se o espírito de Ronaldinho, o mesmo espírito que perdeu o viço lá pelos vinte e cinco anos de idade, não se renovar, não se deixar contaminar por esse sentimento, então será o fim.

E, assim como outros que deixaram de encarar o futebol como paixão para tê-lo apenas como profissão, ele poderá angariar mais alguns milhões na MLS ao lado de ex-parceiros e adversários como Henry e Beckham. O que seria um capítulo final nada glorioso para quem, um dia, foi comparado a Pelé e Maradona.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

MMX

Depois do sucesso do TB 00's Awards, que premiou os melhores e piores da década passada, e diante de minha crise criativa (ok, é só falta de tempo, dois empregos, sabem como é...), O Tudo Bola passa a régua no ano de Copa, de Mundial de Basquete e de mais uma passadinha pela Grécia com o 2010 TB Awards, cópia descarada do primeiro post do ano - mas com novos agraciados pela visão única deste escriba que já viu de tudo mas ainda quer ver mais, muito mais.

ATLETA DO ANO
Rafael Nadal. Depois de lesões no ombro e joelho, o Miúra retomou o topo do ranking e teve o melhor ano da carreira - triunfou em Roland Garros, Wimbledon e no US Open. Sete troféus em oito decisões disputadas em 2010 pelo espanhol. Kelly Slater, com seu deca mundial, ficou para trás.

TIME DO ANO
A seleção da Espanha. Num ano em que a Champions ficou com a chatérrima Internazionale de Mourinho, a Fúria não foi tudo aquilo que dela se esperava na Copa do Mundo, mas venceu de forma inquestionável e até bela, dentro do que um Mundial moderno permite. E não me venham botar a seleção do Bernardinho nesse páreo, por favor.

AMARELADA DO ANO
Meninos e meninas do vôlei brasileiro, esse orgulho nacional, disputaram saque a saque este prêmio. Se a seleção masculina fez papelão na Itália, entregando jogo para Bulgária para evitar um confronto antecipado com Cuba, a quem acabou batendo na final do mundial, a feminina se superou mais uma vez, perdendo a segunda decisão seguida para a Rússia em mundiais. A masculina leva o prêmio no tiebreak, por ter conseguido amarelar numa competição em que acabou campeã. Coisas do vôlei, esse esporte fascinante.

JOGO DO ANO
Barcelona 5x0 Real Madrid. Com direito a mosaico no Camp Nou, nenhum golzinho do Messi e uma declaração de Mourinho, após o chocolate, que entrou imediatamente para a história: "Não é humilhante! É uma derrota fácil de digerir, porque não houve possibilidades de ganhar... É pior quando tens oportunidade de ganhar e não ganhas. O resultado é um prémio para a equipa que jogou bem e um castigo para quem jogou mal."

RIVALIDADE DO ANO
Lebron x a torcida do Cleveland Cavaliers. Ninguém mandou o menino-prodígio do basquete agir como um babaca-prodígio da fama, fazendo mistério durante meses para finalmente anunciar sua decisão sobre ficar ou não em Cleveland em rede nacional, num absurdo de uma hora promovido pela ESPN. É não ter misericórdia alguma dos fãs que o idolatraram por tanto tempo. A resposta veio no primeiro jogo com a camisa do Heat em Cleveland, que teve de tudo - vaias homéricas, brigas na arquibancada, mascote provocativo com colete à prova de balas e até bonecos do astro nos mictórios do ginásio. Ódio puro, em sua essência.

GOLAÇO DO ANO
Talvez a escolha mais pessoal dessa seríssima lista. Mas eu realmente não resisto a assistir de novo e de novo ao gol de Lionel Messi sobre o Real Sociedad, no apagar das luzes da temporada, em sucessivas tabelinhas com Daniel Alves. Futebol é isso.

MICO DO ANO
Seria plausível dar o prêmio ao Flamengo - ou alguém acha que ser campeão num ano e brigar até a penúltima rodada para não cair no seguinte não é mico? Mas, cá entre nós, mico por mico, ainda fico com LeBron James anunciando em rede nacional que estava trocando o Cleveland Cavaliers pelo Miami Heat. Algo sem propósito, sem cabimento, sem pena, sem graça e sem noção do ridículo, tanto dele, quanto da gloriosa ESPN.

MUSA DO ANO
Larissa Riquelme e Sara Carbonero. Mesmo palco, a Copa. Estilos mais opostos, impossível. Pena que só uma acabou nas páginas da Playboy - Larrisa Riquelme. Fico com a espanhola.



CARA-DE-PAU DO ANO
Washington, o boneco do posto do bicampeão brasileiro Fluminense. Na semana do jogo decisivo contra o poderoso Guarani, bem no meio de um jejum de gols sem fim, saiu-se com uma explicação pitoresca - teria feito um pacto com Deus (claro, é o Flu) para trocar seus gols pelo título. Convenceu um ou outro tricolor incauto, não mais que isso.

MALA DO ANO
Eduardo Paes. Nosso prefeito do Rio, primeiro a abraçar Carlos Arthur Nuzman quando do anúncio da cidade como sede dos jogos de 2016, fez de tudo para aparecer em todo e qualquer evento esportivo possível, com destaque para o prêmio craque do brasileirão, quando, mais uma vez, fez o papel de bobo da corte para Lula e Cabral.

ENGANADOR DO ANO
Adriano. Da Chatuba para Roma, mais uma vez conseguiu aplicar o golpe do "agora estou a fim" em um clube de ponta. Acabou eleito pela imprensa italiana, pela terceira vez, o pior do campeonato de lá. Nem um golzinho pela Roma. E já fala em voltar para o Brasil. Mais uma vítima à vista.

BRAVATA DO ANO
Renato Gaúcho: "já transei com mais de 5000 mulheres."

FARSA DO ANO
Omer Asik, pivozão da seleção turca que merecia o Oscar por esse papelão no Mundial da Turquia.

ABSURDO DO ANO
As arbitragens no campeonato brasileiro. Nem é preciso explicar o porquê.

FRASE DO ANO
"Muricy é o novo técnico da seleção".

PERSONALIDADE DO ANO
Ele mesmo. Apesar da notícia do globoesporte.com, Muricy não assumiu a seleção. O Flu não deixou. Em vez de subir nas tamancas, Mr. Ramalho aceitou a decisão de seu empregador, voltou ao trabalho e levou o clube ao seu segundo título nacional (o tri, a Copa de Prata e o Robertão são assuntos para um próximo post). Tem que ter muita pesonalidade pra lidar com uma situação dessas dessa forma.

TRANSAÇÃO DO ANO
Pat Riley, manda-chuva do Heat, leva essa. Convenceu, de uma só vez, LeBron James e Chris Bosh a se juntarem a Dwyane Wade na quente e ensolarada Miami. E fez do time o mais odiado e invejado da NBA.

ESCÂNDALO DO ANO
Será que alguém um dia imaginou ver o goleiro do Flamengo preso por assassinato de uma atriz pornô com quem teve um filho? Com direito a corpo jamais encontrado, cachorros comedores de carne humana, declaração apaixonada através de tattoo de um amigo chamado Macarrão e, pra completar, um primo dedo-duro que entregou todo mundo de uma vez? Sério candidato a maior escândalo de todos os tempos, que promete muitas horas ao vivo de julgamento na Globo News num futuro próximo.

ZEBRA DO ANO
Suíça 1x0 Espanha, estreia dos campeões mundiais na África do Sul. Se já era zebra no dia 16 de junho, virou ainda mais depois do dia 11 de julho. Ou o Mazembe, sobre o Internacional. Como preferirem. Afinal, zebras são brancas com listras pretas ou pretas com listras brancas?

MELHOR COISA DO ANO
O novo player do NBA League Pass leva essa fácil, fácil. É o futuro das transmissões esportivas agora.

sábado, 13 de novembro de 2010

Nada Faz, Realmente, Sentido (Ou A Paixão Cega)

Não é passível de análise lógica o futebol.

É tal qual tentar explicar a paixão.

Hoje, Cuca, revoltado após a derrota com aquele pênalti para o Corinthians, afirmou categoricamente que houve má fé na marcação do lance. Para revelar, segundos depois, que votou em Sandro Meira Ricci para melhor árbitro do campeonato. Disse, ainda, que se pudesse, voltava atrás e mudava o voto.

Na tv, um comentarista afirmava serem "estranhíssimos" os inúmeros pênaltis marcados a favor do Corinthians no Pacaembu. Pediu, até, para que se alguém em casa soubesse a explicação, mandasse para ele.

Em Minas, depois de tomar uma goleada humilhante - sem jogar absolutamente nada - Luxemburgo, com toda sua pose, disse que "com todo respeito ao Guanari" o próximo jogo é para o Flamengo ganhar, "seja pra não cair, seja na disputa do título."

Hein?

Hora e meia antes, Obina tinha aberto o placar e, como virou quase regra, não comemorou o gol. Só que, em se tratando do folclórico Peu-2000, nada jamais é demais. Pediu desculpas pelo gol, numa imagem clara e quase inacreditável. Se não fosse Obina.

Mas é claro que há quem o supere.

Zezé Perrela afirmou que "o Andrés nao comprou o juiz, mas alguém, com certeza, fez isso por ele."

Andrés, por sua vez, se saiu com esta: "No futebol não existe ninguém sem prejuízo. Existem coisas piores no futebol do que um pênalti bem ou mal marcado."

Hã?

E tudo isso, no mesmo dia em que o Juca me releva, em seu blog, que em entrevista com o Tite, o técnico revelou já ter treinado uma equipe que venceu um jogo porque o adversário havia sido "ordenado" a perder para prejudicar seu principal rival. Como esperado, jurou nem sob tortura revelar nomes.

E até o Juca, quem diria, exagerou em sua paixão. O texto sobre o choro de Cuca (atenção botafoguenses: o termo foi dele) foi tão torcedor ao afirmar com convicção absoluta o pênalti que deve ter feito Renato Maurício Prado corar de vergonha em sua rubro-negrice.

São incríveis o futebol e todas as figuras que vivem dele.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Nada de Previsões.

Mais um ano, outra reta final disputada. E lá estão os matemáticos, ainda a vender seus serviços para os mais variados veículos, transformando esperança e desespero em frios - e mentirosos - números. Mentirosos porque, depois do Flu-2009, ninguém deveria mais ligar para essas contas. Mas, por algum motivo, ligam.

(Pode ser algum tipo de exploração da fé do torcedor, que se agarra às suas chances matemáticas como o devoto ao seu terço, e nelas crê até o título derradeiro ou o maldito "matematicamente rebaixado")

O Tudo Bola, nada afeito a tais números, prefere outros, mais lógicos.

Faltam seis rodadas para o fim do campeonato. E tão importante quanto conjecturar quem tem os compromissos mais fáceis - algo relativo diante dos tropeços recentes dos quatro primeiros colocados - é lembrar como desempenharam nas seis últimas rodadas.

Nelas, Cruzeiro e Botafogo conquistaram dez pontos - o primeiro, com três vitórias e um empate e o segundo, com duas vitórias e nenhuma derrota. Fluminense e Corinthians, por sua vez, ganharam seis, com campanhas idênticas - uma vitória e três empates.

Se mantiverem, nas próximas seis rodadas, o aproveitamento das últimas seis, o campeonato terminaria assim:

1 Cruzeiro - 67 pontos
2 Fluminense - 63
3 Botafogo - 61
4 Corinthians - 60.

O único confronto direto entre as quatro equipes acontecerá na trigésima-quinta rodada, quando se enfrentam Corinthians e Cruzeiro. Que, se continuar na tocada recente, fica com o título.

E, por tocada recente, entenda-se um aproveitamento de 55%. Inferior, portanto, ao que o próprio time ostenta, juntamente com o líder Fluminense - 59%.

* * *

Que nossa presidente olhe pelo esporte, num país sem política esportiva, sem um ministério forte, sem prática esportiva decente nas escolas e universidades, mas com uma turma que enriquece às custas do esporte há anos e anos, sem nunca mudar.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

2K

Os fios brancos na barba não me deixam mentir - eu joguei muito futebol de botão.

Nascido em 73, infância entre a Tijuca e Botafogo, eu realmente não cheguei a ser bom na bolinha de gude ou na pipa, mas no botão... Torneios no colégio - no Anglo-Americano ou no Marista São José -, na faculdade - ok, na ECO preferíamos o totó e a sueca -, ou no trabalho, nada me escapava. Afinal de contas, meu background era forte.

Não sou do tipo de pessoa que tem ricas e coloridas memórias de infância. Nem sonho em me lembrar de nada que tenha acontecido antes dos meus cinco, seis anos, tirando um ou outro flash desbotado. Mas jamais esquecerei das pequenas luzes estroboscópicas adaptadas, das faixas e bandeiras de papel imitando as torcidas, dos cotonetes embebidos em álcool, em chamas, colados na lateral da mesa, e do papel picado atirado para o alto por um canhão do forte apache playmobil - era o Flamengo entrando em campo, para uma final de campeonato, no momento em que minha mãe entrava no quarto, horrorizada com todo aquele arsenal em torno da mesa de botão. Eu tinha dez anos e emulava a decisão de 83, entre Flamengo e Santos.


Joguei durante toda a infância, sistematicamente. Campeonatos carioca, paulista, gaúcho, brasileiro, italiano, espanhol, Copa dos Campeões, Libertadores, Mundial, Copa do Mundo - era sempre eu contra eu, enquanto narrava, comentava e reportava, tudo (inclusive o jogo em si) na maior imparcialidade possível. Não, o Flamengo não era sempre o campeão. Mas eu sim. Joguei tanto botão na vida que, a partir de um determinado momento, ficou sem graça jogar com os outros (e, para eles, contra mim). E, como se diz sobre andar de bicicleta, essa habilidade jamais me abandonou. Já adulto, soube que o terceiro campeonato organizado no Sportv foi feito de forma sorrateira, sem a presença deste que havia tirado a graça dos dois anteriores. E não, nunca fui de tirar sarro dos outros enquanto jogava. Só com meus irmãos. Meu sarro era dadinho no filó.

* * *

Todo esse preâmbulo tem razão de ser. Ontem eu corri da tv para casa, assim que pude, para instalar em minha máquina o PES 2011 - o Pro Evolution Soccer, melhor (para mim) game de futebol do mercado.


Não é tão lúdico quanto o futebol de botão, é verdade. Mas não adianta resistir ao tempo, senhor de todas as coisas. Hoje, quando sento no sofá com meus amigos para jogar, me divirto mais do que quando impulsionava com uma palheta um botão de acrílico ou galalite contra um dadinho, mirando o gol. Não há comparação. Os anos 2000 trouxeram um realismo e dinamismo aos games que jamais imaginei serem possíveis lá nos distantes anos 80, quando sonhava sobre como seriam as coisas no novo milênio.


Praticamente todos os times do planeta. Gráficos e movimentos de um realismo a cada ano mais assustador. Possibilidades infinitas, como ser um jogador, desde a base até chegar à seleção nacional, ou, quem sabe, o técnico do Flamengo, na disputa de uma Libertadores. E a melhor de todas - assumir o papel de manager, montar seu próprio time e disputar sucessivas temporadas, acompanhando o crescimento do clube e o desenvolvimento dos jogadores. Tudo com um olho nas finanças - gastar dinheiro demais em negociações e contratos pode levá-lo à falência - e outro naquele garoto de 19 anos que joga no AEK e pode ser seu próximo grande craque.

Não dá pra competir. Tem uns bons dois ou três anos que não empunho uma palheta


Às cinco da manhã, o time estava montado. O Rubro-Negro tem uniforme, claro, à imagem e semelhança. Sua casa é a Amsterdam Arena, rebatizada Ninho do Urubu, mas ele jogará o campeonato espanhol - começando pela segunda divisão. Vai num 4-2-3-1, muito parecido com o Real Madrid de Mourinho. Se nenhum problema físico atrapalhar, vai a campo hoje à noite, em sua estreia, com Mandanda, Rafael, Cristian Zapata, Onuoha e De Ceglie; Schweinsteiger e Hamsik; David Silva, eu e Cláudio Rodríguez; Lavezzi.

O "eu", claro, à perfeita imagem. Mas não semelhança. Porque no mundo real, meu esporte é mesmo o basquete. Sou ruim toda vida com a bola no pé.

Nada como os tempos modernos.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Quando Desesperança E Felicidade Se Misturam.

A cena, ontem, me fez mal.

No estacionamento do "CT" do Flamengo, Zico, com cara de nenhum amigo, se dirigia ao carro, após mais um dia de turbulência no Flamengo, quando foi interpelado pelo repórter Cícero Melo, da ESPN Brasil. Uma, duas, três perguntas. Nenhuma resposta. A porta do carro se fecha e Zico vai embora.

Nenhum questionamento quando à postura do Cícero. É dever do repórter, mesmo sabendo que, se não falou em coletiva, se não falou com ninguém, Zico provavelmente também não falaria com ele. Mas eu, no seu lugar, também tentaria. Só não poria no ar depois, por uma questão de elegância.

O que me fez questionar o estado atual (não mais) das coisas foi a postura do Zico. Aquele semblante. De um Zico que eu não reconheci nas imagens. Fiquei profundamente triste ao pensar que, depois de tudo que fez pelo clube, o Galinho agora pudesse estar numa situação em que, trabalhar para o clube, lhe causasse tanta angústia. Angúsia pela pressão, normal quando o Flamengo não vai bem, mas, principalmente, pelas acusações, tramóias, motins e pessoas escusas que rondavam seu trabalho nos últimos quatro meses.

Aí hoje eu chego no trabalho e dou de cara com a notícia de que Zico pediu o boné.

O primeiro sentimento, claro, foi de revolta e desesperança. Como pode alguém que se diz rubro-negro duvidar da idoneidade do Zico? Como pode, ainda hoje, a mesma corja que se instalou na Gávea na segunda metade da década de noventa ter tanto poder?

Quem é "capitão" Léo pra ser presidente do Conselho Fiscal do clube, depois de ter aprovado as contas de Edmundo Santos Silva em 99? Quem é Hélio Ferraz pra dizer que vai cobrar do "piloto" do futebol explicações pela má fase? Quem é essa gente, rubro-negramente falando, perto do Zico?

Por outro lado, agora, sinto alívio, uma quase felicidade pela saída do Galo. E me recordo do que senti quando, depois de 14 anos, pedi demissão do Sportv, por não concordar com os rumos do canal e com as decisões dos "capitães léos" de lá. Não é justo, numa relação de trabalho, que um lado se mate, se doe, se aborreça e se frustre enquanto o outro bate, explora, cobra e erra seguidamente.

Por isso, posso dizer que fico feliz com a saída do Zico do Flamengo. Feliz por ele.

O Flamengo atual não merece uma pessoa como Zico.

Merece, sim, sujeitos como o da foto. Ex-chefe de torcida, ex-dirigente da Ferj e, agora, ex-rubro-negro, como fica provado neste episódio.


Pra quem quiser entender o porquê das denúncias deste sujeito serem descabidas, sugiro a leitura da coluna de hoje do PVC.

E, por favor, que ninguém me venha com o argumento de que Zico errou ao abandonar o barco num momento de crise. Porque ninguém que se ache no direito de dizer isso jamais fez, pelo Flamengo, os sacrifícios que Arthur Antunes Coimbra fez.

Nem perto disso.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Sábado, em meio à melancolia geral por conta da derrota para o Palmeiras, ainda com a bola rolando no Engenhão, ouço o grito, vindo de alguns metros atrás de onde assistia ao jogo.

"Vai tomar no cu, Zico!"

Eu e mais dezenas de pessoas olhamos para o sujeito na mesma hora. Não era moleque, devia ter seus trinta, talvez. Se tinha mesmo essa idade, mal viu o Galo jogar, pensei. Talvez nem mesmo seja um torcedor fiel, embora estivesse ali, conosco, naquela verdadeira prova de amor ao clube. Quem sabe quis apenas aparecer - da pior forma - com aquelas palavras.

Ou talvez seja apenas um torcedor comum, como qualquer outro, cansado de ver o Flamengo perder.

Fato é que, após os olhares de reprovação, o sujeito emendou outra vez a mesma ofensa, como se quisesse marcar que realmente tinha falado aquilo e, mais, tinha o direito a tal (assim como eu tinha o direito de xingá-lo de volta por isso, mas não o exerci).

Quando decidiu assumir o futebol do Flamengo, Zico aceitou descer de um pedestal sagrado, ornado de gols, títulos e pintado de vermelho e preto, para se submeter à humana condição de dirigente. Sabia, claro, que nem por conta disso estaria imune às críticas. Mas certamente não imaginava, por conta de sua índole, que seria alvo de denúncias, acusações e muita pressão por parte de quem não ama o clube e quer dele apenas poder e dinheiro - gente que não se conforma em ver o Flamengo, enquanto instituição, melhorando a cada dia desde a posse da presidenta Patrícia Amorim. Porque é preciso saber que o clube, que vai bem, não é apenas o time, que vai mal. Os salários na Gávea estão em dia, a própria Gávea perdeu seu aspecto sujo e abandonado e o clube investe na construção do CT que sempre quis e nunca teve, CT esse que sabemos ser fundamental para que se resgate um passado de formação de craques e times vencedores. O basquete agora tem dinheiro para si, a ginástica idem, a natação está de volta ao pódio e aos jornais.

Mas Zico cuida do futebol, apenas. E o futebol do Fla não vai nada bem.

Há coisa de três meses, eu escrevi aqui no TB sobre os verdadeiros trabalhos de Hércules que o Galinho teria pela frente. Curiosamente, o time havia acabado de perder, de forma inacreditável, para o Goiás, mesmo adversário de hoje. Falava-se em contratar Montillo, carrasco da Libertadores... os jornais tentavam se vender com histórias sobre Ronaldinho e Riquelme... Bruno ainda era o goleiro do time.

De lá para cá, o Flamengo perdeu sete vezes, empatou sete e só venceu quatro, chegando à situação em que se encontra hoje, temeroso de um novo drama para fugir de um inédito rebaixamento. Zico, como era previsto, teve dificuldades para remontar o time campeão brasileiro, que acabou sendo desfeito. Acertou algumas, como a contratação do jovem Diogo, que ainda deve dar alegrias à torcida, e errou em outras apostas, como Val Baiano, Borja e Leandro Amaral, só para citar o ataque. Para os que hoje criticam o acerto com Deivid - que realmente não está jogando nada -, eu lembro que, sem dinheiro e sem muitas ofertas no mercado, não há como fazer boas compras, ainda mais com a temporada começada.

Culpa do Zico? Claro que não. Ele aceitou assumir o comando do futebol do Flamengo bem no meio da Copa do Mundo; o assumiu de fato imediatamente depois. Logo, pegou o bonde andando, um bonde já repleto de furos, engranagens soltas e sem rumo certo.

Também no meio desse caminho pós-Copa até agora, Zico tomou outra importante decisão - demitir Rogério, que me parece nunca ter tido realmente o grupo na mão. Trouxe Silas, o melhor nome disponível à época. Que hoje pode até mesmo ter seu cargo a perigo em caso de nova derrota para o Goiás. E pior - se ele cair, não há, no momento, nenhum nome além do de Luxemburgo à altura do comando do clube.

Não é fácil. Se para o torcedor já é uma dor de cabeça tremenda, imaginem para Zico - sendo ele quem é, tendo a ligação com o Flamengo que ele tem e a seriedade que sempre demonstrou com seus compromissos.

Garanto que ele dormia bem melhor quando se preocupava apenas em jogar bola.


Mas esse não é mais o caso. Agora, por sua posição, ele está sujeito a impropérios como o daquele torcedor do Engenhão. E a críticas. Mesmo de gente que, sabidamente, sempre esteve ao seu lado, sempre deveu tantas alegrias a ele. Faz parte.

Ontem, pela primeira vez, Zico pisou na bola feio, no meu modo de ver. Permitiu que um grupo de dez torcedores tivesse acesso ao grupo de jogadores e ao técnico, em seu ambiente de trabalho. Pior, em sua privacidade, no vestiário. Sob a desculpa esfarrapada de uma "reunião de apoio", essas figuras, com seus cacasos da Raça e da Jovem e sua pinta de marginais, cobraram raça, empenho e Deus-sabe-mais-o-quê.

Zico não participou dessa reunião. Após saber o tom da conversa, se mostrou surpreso e garantiu que "será a última vez". Apesar disso, não vê o caso como um precedente perigoso, pois afirmou que mesmo sua sala continua aberta aos torcedores, desde que seja sempre de forma civilizada.

Esses sujeitos me parecem ser tudo, menos civilizados.


Em lugares civilizados, torcedores não têm acesso ao vestiário dos jogadores antes de um dia de trabalho. Não cobram destes empenho, raça ou o que quer que seja. Não exigem satisfações do técnico. Nem têm acesso ao departamento de futebol ou à sala da presidência.

Isso tudo eu realmente esperava não ver mais na Gávea depois que Zico assumiu. E continuo esperando não ver, agora que ele garantiu que foi a última vez. Vamos ver.

* * *

Pra quem adora dizer que o campeonato brasileiro é o mais equilibrado do mundo, um dos mais difíceis do mundo, eu digo o seguinte:

O campeão do ano passado, se cair este ano, não surpreenderá ninguém.

O quase rebaixado Fluminense, que surpreendeu a todos ao não cair, pode ser o campeão este ano.

Não há, com exceção de dois ou três clubes, real profissionalismo, planejamento, estrutura no futebol brasileiro. Não há continuidade, trabalho de longo prazo, paciência e investimento no futuro.

O que há, sim, é a realidade do país, a minha, a sua, a nossa - num mês dá pra pagar todas as contas, no mês seguinte não dá e assim a gente vai levando, da forma que é possível.

É a vida por estas bandas.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Valores.


Antes de entrar no mérito (ou na falta de) da demissão de Dorival Júnior, é preciso saber, com precisão, se os fatos divulgados após o anúncio oficial de sua saída correspondem à verdade. O próprio ainda não se pronunciou.

Segundo a diretoria santista, havia sido decidido, de comum acordo, que Neymar ficaria fora do jogo contra o Guarani, por conta de suas atitudes na vitória sobre o Atlético Goianiense, quando xingou técnico e companheiros por ter sido impedido de cobrar um pênalti que ele mesmo sofrera. Para o clássico contra o Corinthias, hoje, o menino de ouro da Vila seria reintegrado, segundo palavras do presidente do clube, Luis Alvaro de Oliveira Ribeiro, citando reunião com o treinador na segunda-feira. Só que, na coletiva de ontem, após o treino, Dorival anunciou que Neymar continuaria fora do time e que tinha o respaldo da diretoria para tomar tal decisão.

É, respaldo ele não teve, isso já sabemos.

Mas por que Dorival Júnior, que me parece dos mais corretos e éticos em sua profissão, decidiu passar por cima do que haveria combinado com o presidente (veja o comunicado oficial do Santos) em relação ao retorno de Neymar ao time?

(Corta para 21 de agosto, na França)

Foi nesta data - sete dias antes do início do Mundial da Turquia - que o técnico da seleção brasileira de basquete, o argentino Rubén Magnano, cortou Nenê por conta de um estiramento muscular no músculo sóleo. Segundo os médicos, uma contusão que exigiria entre cinco e dez dias sem atividade física, tornando perfeitamente possível sua manutenção no grupo para que tivéssemos o pivô na fase decisiva do campeonato. Nenê provavelmente estaria apto para atuar nas oitavas, contra a Argentina, e certamente teria feito diferença naquele jogo. Mas não fez, não estava mais lá. Por quê?

Segundo minha percepção, porque Magnano não quis. E não por conta da contusão, que acabou sendo pretexto perfeito para o corte, mas sim porque não engolia a postura de Nenê e sua atitude nos treinamentos. Afinal, Nenê não gosta de treinar e demonstra isso. Magnano acabou de chegar ao comando, fez o grupo treinar duro e conquistou sua confiança. Coisa que o pivô nunca teve dele.

(Corta para a Vila Belmiro, ontem)

Em meio ao turbilhão dos últimos dias, Dorival Júnior comanda o treino do Santos. A poucos metros dele está Neymar, epicentro dos tremores. Eu não vi o treino, não posso saber. Mas vi como o atacante se comportou depois daquele pênalti que não bateu. Foram quase dez minutos em campo até o fim do jogo, dez minutos de firulas descabidas, de gestos exagerados, de mais palavrões e reclamações, mesmo com a vitória garantida. Foi um deboche.

Como terá se comportado Neymar ontem, no treino?

(Corta para o Morumbi, daqui a alguns meses)

Dorival Júnior comemora a classificação do São Paulo à Libertadores, garantida apenas na última rodada do campeonato, com a vitória sobre o rebaixado Atlético Mineiro de Luxemburgo. Ele é abraçado por seus comandados e festejado pela torcida. Na coletiva após o jogo, a diretoria comunica que, já na semana seguinte, vai se reunir com o treinador para planejar a temporada 2011.

Dorival jamais voltou a tocar no assunto. Quando assumiu o São Paulo, uma semana depois, disse que estava contente por ter a chance de trabalhar num clube com estrutura profissional, hierarquia bem definida e respeito pela disciplina. Coisas que ele, corretamente, prezou no episódio de sua demissão do Santos.

Por conta disso, sua imagem sequer foi arranhada, pelo contrário - Dorival saiu ainda mais forte, admirado e valorizado da Vila.

Neymar?

Bem, sabe-se que o Chelsea jamais demonstrou o mesmo interesse de antes.

* * *

Sobre as imagens divulgadas ontem, de como ficará o "novo" Maracanã, reproduzo o email do meu mestre Renato Nogueira:

"Porra, ele flutuava... Agora, nessa versão Frank Miller, vai ficar atarrachado no chão. E maracanã é um pássaro, né? Abateram o estádio!"

Pois é. E o pior é que, além de enterrado no chão, o novo gramado terá dimensões bem menores. Esse sim, para mim, é o maior crime que está para ser cometido.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Voltamos.

Quando a gente sai para uma viagem longa, como a que fiz agora - 45 dias -, é comum que se tenha aquela preocupação em deixar determinados aspectos mundanos da vida planejados, como aquela maldita conta que por algum motivo não está com débito automático, o pagamento do cartão de crédito - ninguém quer ficar sem ele no exterior - ou onde vai ficar o carro este tempo todo.

Tudo isso, claro, eu planejei. O que não deu pra planejar foi como ficaria o meu time.

E olha, foi difícil acompanhá-lo com uma diferença de fuso de seis horas a meu favor. Ainda assim, houve a noite em que, grudado na web, vi o dia clarear sem que a situação do meu time clareasse... E ainda aquela outra em que, dentro de um caminhão de transmissão, pude ouvir, ao vivo, dois gols seguidos do Guarani, em poucos minutos, me roubando uma alegria que já parecia certa.

Fato é que só tive esse sentimento uma única vez nestes 45 dias - quando o Flamengo venceu o Ceará, no Maracanã, logo depois que parti. No total, foram nove jogos, com essa vitória, três empates e cinco derrotas. Perdemos todas fora - para Corinthians, Atlético PR, Guarani, Cruzeiro e São Paulo. Em três jogos diante da torcida e de times desfalcados e/ou em má situação no campeonato, não passamos do empate - Atlético MG, Santos (sem Neymar e já sem Ganso) e Vitória (jogo que quase perdemos).

Pelo menos, desde que voltei (sem onda), foram quatro pontos em seis possíveis. Já é algo.

Conversando ontem com minha namorada, enquanto assistíamos ao Fla-Flu, expliquei-lhe que, no meu ponto de vista, o grande erro do Flamengo foi ter se planejado tardiamente para o campeonato brasileiro. Uma série de fatores levou a esse "atraso" e não entrarei em detalhes aqui. Basta dizer que não havia como ser muito diferente disso e que, com o que temos, acredito plenamente na possibilidade de classificação para a Libertadores.

E por que não? Hoje, estamos a apenas oito pontos do Santos, o sexto colocado. Ainda faltam quinze jogos e nove deles serão no Rio. Não acho que seria nenhuma grande façanha, se comparada à arrancada do ano passado.


Dorival Júnior e Silas tiveram comportamentos idênticos na rodada de ontem. Enquanto o primeiro fez valer sua vontade e afastou Neymar do grupo - ao que parece, ainda por tempo indeterminado -, o segundo fez o mesmo, de outra forma, deixando Petkovic no banco durante todo o Fla-Flu.

Resta saber, agora, como cada elenco vai reagir à demonstração de autoridade de seu treinador.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O Recibo.

Hoje saiu uma foto que mostra que a sensacional cesta de Kerem Tunçeri, da Turquia, no último segundo da semifinal contra a Sérvia, foi ilegal.

A imagem foi captada por um torcedor e mostra o exato momento em que o armador turco pisa na linha enquanto conduz a bola. O câmera da FIBA, de colete vermelho, deve ter pego um bom ângulo. Mas ele jamais foi mostrado na transmissão de tv ou no telão.


Se já não tinham gostado do papelão de Ömer Asik, agora os sérvios afirmam que foram roubados. É, não há como dizer que não foram.

domingo, 12 de setembro de 2010

A Conta, Por Favor.

Falta pouco menos de uma hora para a final entre Turquia e Estados Unidos. Vendo o Sinan Erdem já quase lotado, enquanto sérvios e lituanos disputam o terceiro lugar, lembro-me da decepção pela eliminação brasileira, do clima aconchegantemente charmoso do Abdi Ipekçi, do injusto fim do jogo de ontem e do quanto gastei para estar aqui, durante três semanas, acompanhando este mundial – no fim das contas, sem compromisso algum com trabalho, tirando dois dias operando ao vivo uma câmera que deve custar mais que meu carro.

Valeu cada centavo.

A Lituânia acaba de conquistar o bronze. Os sérvios vão para casa com um frustrante quarto lugar, mas este sentimento não é só deles. A Argentina termina em quinto, a Espanha em sexto e este mundial ainda pode acabar pior para o basquete - como a Copa de 78 para o futebol.

Os americanos acabam de entrar em quadra para o aquecimento sob tremenda vaia. Torcerei por eles, para o bem do Brasil no pré-olímpico do ano que vem, em Mar del Plata. Se bem que, com a iminente greve na NBA, isso pode fazer nenhuma diferença. Mas não quero a Turquia campeã.

O dia da final foi também de referendo aqui, com cinquenta milhões deles decidindo se mudam ou não uma constituição escrita em 1982, dois anos após um golpe militar que levou centenas de ativistas à prisão, tortura e forca. Não chega a ser notícia que interesse ao mundo, embora devesse. Os turcos estão de olho num lugar na União Europeia, o que, aí sim, seria algo notável – um país com 99% da população muçulmana, quase totalmente situado na Ásia, entrando para o clube rico do velho continente. Não à toa, França e Alemanha têm posição veladamente contrária à aceitação do novo membro. Embora não haja um fundamentalismo islâmico aqui e o povo tenha democracia, através de um sistema parlamentarista, não sei se dá pra dizer que simpatizem ao extremo com os ocidentais. Talvez com alguns de seus modos, suas modas e, claro, todo seu dinheiro. Istambul é uma das cidades do planeta com maior número de bilionários.

Os americanos já saíram de quadra. Nas lanchonetes, turcos consomem sanduíches de carne de higiene duvidosa e cola turca. Eu devia ter desconfiado de um torneio da FIBA sem Coca-Cola. Aqui é outro mundo. Que quase vem abaixo quando as luzes se apagam e o sistema de som anuncia a apresentação oficial dos dois times. A torcida canta em tom uníssono – e quase ensurdecedor – a música tema dos “12 Gigantes”, como é conhecida a equipe da casa. O momento do hino turco até seria arrepiante, se eu já não estivesse tão louco para ver Istambul pelas costas.

A bola subiu. E eu digo que um time americano jamais enfrentou ambiente tão hostil (eu estava no ginásio em 2004, em Atenas, no jogo contra a Grécia – não chegou nem perto disso aqui). Torço para que o brasileiro Cristiano Maranho, que comanda o trio, não se perca. Mas no já no primeiro quarto, a arbitragem foi da casa. Mas um lance, a 49 segundos do fim, deu o caminho das pedras para os americanos – o jogo físico. Eric Gordon marcou Sinan Guller até o osso e a Turquia estourou o tempo de posse. O banco americano, bem ao lado, explodiu. Atleticamente falando, não dá para comparar. E eles ainda têm um moleque de 21 anos chamado Kevin Durant. Onze pontos dele no quarto, 22 a 17 para os EUA.

Vantagem que dobrou na ida para o intervalo, apesar do time americano ter abusado dos chutes de 3 – e mal – no segundo período (2 de 12), quando Durant fez mais nove pontinhos, chegando a 20...

(O QUÊ é Kevin Durant? Eu vi bastante do Dominique Wilkins, outra máquina de pontuar, mas esse garoto é realmente fora do comum. Nesse mundial ele mostrou que o comentário de Andre Iguodala não é tão fora de propósito quando pareceu. Seu companheiro de time afirmou aqui em Istambul que Durant será o maior cestinha da história. Não apostaria contra isso.)

O terceiro quarto começou e, depois de duas bolas seguidas de 3, ele se virou para a torcida turca e bateu no peito, com raiva, sentimento que foi retribuído da mesma forma. Detalhe – na segunda, pouco antes, um apito veio da arquibancada e o time americano chegou a dar uma meia-trava, achando que algo tivesse sido marcado. Turcos.

Durant terminou com 28 pontos. A sete minutos do fim, os americanos venciam por vinte. E fecharam a partida por 81 a 64.

Daqui a alguns anos, talvez ninguém lembre de muita coisa deste mundial, em que favoritos como Espanha, Argentina e Grécia ficaram pelo caminho, em que a Turquia chegou à final com a ajuda de uma trapaça e Sérvia e Lituânia jogaram muito basquete.

Mas todos vão lembrar de que ele foi o cartão de visitas de Kevin Durant – de Oklahoma para o mundo.

sábado, 11 de setembro de 2010

A Patifaria Turca.

Antes de mais nada, é preciso explicar quem é Ömer Asik.

Pivozão sem muito talento de 2,14 m, o turco de 24 anos vai estrear na NBA na próxima temporada - e pelo meu Chicago Bulls. No media guide da FIBA, se referem da seguinte forma: "...his free-throw shooting is abysmal". Bondade. Asik faz Shaq (52% na carreira) e Dwight Howard (59%) parecerem o Petrovic. Em sua última temporada aqui no Fenerbahçe Ulker, pela Euroliga, Asik teve média de 36% nos lances livres.

Hoje, contra a Sérvia, faltando 1:18 pro fim, ele recebe uma falta absolutamente normal do Milos Teodosic que o levaria para a linha, para dois arremessos. O que ele faz? Cai no chão e ali fica, com as mãos sobre o rosto como se tivessem lhe arrancado um dos olhos.

O placar marcava 78 a 77 para a Turquia.

Seria absolutamente normal que, diante da pressão, Asik errasse os dois arremessos. Até então, tinha cobrado três e convertido um.

Pois do chão, depois de algum tempo, Asik foi direto pro banco, ainda com as mãos sobre o rosto e com meio time turco o cercando.

O técnico botou em seu lugar o armador Ender Arslan, que, ainda por cima, só acertou um arremesso.

Pela regra, só há uma situação em que um jogador que vai para a linha de lance livre pode ser substituído - se ele não tiver, por conta de contusão, mais condição de continuar na partida. Neste caso, o treinador o substitui e quem entra cobra os lances. Quem sai, mesmo que melhore depois, não pode mais voltar - afinal de contas, a premissa é de que não os cobrou porque não podia mais jogar.

Hoje, Asik forjou descaradamente um problema que não existiu de forma alguma.

Terminado o jogo, lá estava ele, com os outros onze, comemorando loucamente, como se nada jamais tivesse acontecido ao seu olho, como a foto ao lado deixa bem claro (a cena, ou melhor, encenação, havia acontecido alguns instantes antes deste click - e, do jeito que a partida terminou, ninguém nem se importou em disfarçar depois).

E não aconteceu mesmo.

* * *

A Turquia não precisava disso para vencer. Mas fato é que venceu por apenas um pontinho. Que pode ter sido aquele lance livre convertido pelo Arslan.

Também não precisava de tanta ajuda da arbitragem. Hoje teve até dois tapas na cara seguidos em cima de jogadores sérvios, ambos a metro e meio dos juízes. E com a bola parada. Inacreditável, em se tratando de uma semifinal de mundial.


Tão inacreditável quanto é que a Sinan Erdem Arena lotada tenha intimidado mais a árbitros e o próprio time turco - muito nervoso - que aos próprios jovens sérvios. Um time equilibrado, que não chuta de fora a esmo, joga sempre de forma consciente, procurando aquele passe extra que deixa o companheiro livre para o arremesso, seja dentro ou no perímetro. Pra mim, o melhor basquete deste mundial.

Com um detalhe: Teodosic, Tepic e Velickovic têm 23 anos, Bjelica, Keselj e Markovic menos ainda, 22, Perovic 25, Rasic 26 e Savanovic e Krstic, os mais velhos da rotação básica do técnico Dusan Ivkovic, têm 27. Imaginem o que vem por aí...

* * *

Teodosic, aliás, foi monstruoso hoje. Em trinta e seis minutos em quadra, sempre sob marcação fortíssima, fez 13 pontos, deu 11 assistências, pegou 6 rebotes e desperdiçou uma só bola. Uma atuação cerebral, digna do craque que ele é. Sorte da torcida do Olympiakos que os irmãos donos do time, armadores (de navios, não de basquete...) gregos bilionários, têm grana suficiente para segurá-lo.


Na outra semifinal, aconteceu com a Lituânia o que também aconteceu com a Argentina, que depois de um partidaço contra o Brasil, não foi nem de longe o mesmo time no jogo seguinte e acabou ficando pelas quartas.

Naquela partida, a Lituânia converteu suas oito primeiras bolas de três, além de fazer o que não fizemos – parar Luís Scola (13 pontos, 6 de 16 arremessos). No geral, teve um aproveitamento de 54% nos arremessos (37/69) e em momento algum permitiu que o adversário tivesse a chance de voltar ao jogo.

Hoje, a Lituânia foi a Argentina de quinta. Doze pontos no primeiro quarto, apenas vinte e sete no primeiro tempo – no mesmo espaço, Kevin Durant fez 24. Na defesa, não foram nem sombra do time aplicado e aguerrido das quartas. E a pontaria... só 39% no geral e igual percentual para 3. Resultado: vitória americana por 89 a 74, sem que jamais os lituanos realmente tivessem chance. E olha que os Estados Unidos chutaram mal também, 8 de 25 para 3 pontos. Mas Durant fez 38, então...

* * *

Milos Teodosic, Juan Carlos Navarro (podia ser Jaka Lakovic, da Eslovênia, mas prefiro o espanhol), Kevin Durant, Luís Scola e Ersan Ilyasova (podia ser Hamed Haddadi, do Irã, mas vou sem um pivô genuíno). Meu time desse mundial.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Jogamos Como Nunca, Mas Insistem Em Tratar A Derrota Como Sempre...

Sai agora a notícia de que Tiago Splitter jogou contundido ontem - uma contratura na coxa sofrida na partida diante da Eslovênia, nossa penúltima na primeira fase. Por conta disso ele teria jogado tão pouco contra a Croácia e tão discretamente contra a Argentina.

Já li manchetes como “A CBB ESCONDEU A CONTUSÃO” e lamúrias do tipo “a imprensa não tinha como saber, pois não podia acompanhar os treinos, fechados”. Eu não sou fã de como as coisas são feitas na CBB, há muitos anos. E ainda acho cedo para sair metendo o pau na administração atual, que teve o mérito de contratar um técnico de ponta, tem acertado em algumas medidas e continuado a errar em muitas outras.

Mas acho que é direito de qualquer treinador, em qualquer esporte, trabalhar sem a presença da imprensa.

Não conheço, aliás, nenhum jornalista que goste de escrever seu texto com alguém atrás olhando enquanto ele trabalha.

O que não acho correto é limitar o acesso da imprensa aos atletas depois que o trabalho acaba, como foi feito aqui em Istambul, em treinos e jogos.

E, se técnico fosse da seleção brasileira, não gostaria que o Sérgio Hernández soubesse que um de meus principais jogadores, um dos encarregados de marcar Scola, entraria em quadra sem estar 100%.

Mas agora, como disse, vai ter um monte de gente que nunca pegou numa bola de basquete, que não sabe identificar um pick and roll (que Prigioni e Scola fizeram tão bem ontem no fim), querendo achar explicações, sejam quais forem.

Depois, eu tenho que ouvir colegas de profissão dizendo que o esporte não é área de jornalistas sérios. Muitos não são mesmo.


Nada mais apropriado que o jogo de hoje entre Sérvia e Espanha, pelas quartas-de-final, ter teminado da maneira como terminou – com uma cesta de 3 de Milos Teodosic, a três segundos do fim, quase no estouro do relógio de posse de bola e quase do meio da quadra.

A bola que decidiu a partida (92 x 89) mostra não apenas como o armador sérvio tem colhões do tamanho do troféu de MVP da última Euroliga, que merecidamente ganhou, como também como no basquete, hoje em dia, times e seleções vivem e morrem através dos arremessos de 3. Que nós, nos últimos anos, erradamente nos acostumamos a rotular como um “mal brasileiro”.

A Espanha, que tem um excelente pivô como referência no garrafão em Marc Gasol, entrou no quarto final perdendo por três pontos. Até então, havia chutado quase tantas bolas de 3 – vinte e duas – quanto de dois pontos – vinte e seis. E isso tendo como um de seus principais jogadores o jovem Ricky Rubio, que praticamente não chuta dos 3 por não ter arremesso consistente. No fim, os espanhóis terminaram a partida com um aproveitamento de 56% para 2 pts (20/36) e 38% para 3 (10/26). Mesmo chutando muito bem dentro do perímetro, tentaram só dez bolas a mais nele do que de fora.

E o que dizer da Sérvia? Foram 35 arremessos para 2 no jogo (com o também ótimo aproveitamento de 54%), contra 30 da linha dos 3 (com 50% de acerto, o que acabou sendo o X para a vitória). Ou seja, praticamente chutaram tanto de fora quanto de dentro.

Desconsiderando os erros, em que os dois times praticamente se equivaleram (14 espanhóis e 16 sérvios), a Espanha teve 65 posses de bola e a Sérvia, 62.

Qual a moral desses números, então?

Simples. Se você tem um bom time pra 3 pontos, com bons arremessadores, jogue com eles. Se, mesmo assim, a bola não estiver caindo, não insista.

E se, ao contrário, você não tem no chute de 3 sua principal arma, mas a bola, num jogo qualquer, estiver caindo, continue chutando.

Ou seja, bom senso. Como tudo na vida.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

7 de Setembro, Um Brasil Bem Na Foto - Depende Do Ângulo Que Se Vê.


Nos últimos três anos, a seleção brasileira teve três jogos realmente importantes, jogos que valiam muito para o futuro do basquete no país. Eu estava presente nos três (e antes que me chamem de pé-frio, eu estava na Coréia do Sul quando conquistamos o penta e em Lisboa quando Guga levantou a Masters Cup – então, o problema não sou eu, definitivamente).

O primeiro deles foi em 2007, em Las Vegas, contra a mesma Argentina de hoje. Como já escrevi aqui, lideramos o placar durante boa parte da partida, mas perdemos no fim. O segundo, no ano seguinte, em Atenas, também valia vaga para os Jogos Olímpicos de Pequim. Diante da Alemanha de Dirk Nowitzki, no entanto, em nenhum momento jogamos realmente bem e perdemos por treze pontos no fim.

Hoje, contra a Argentina, o retorno não estava em jogo (aqui em Istambul, apenas o campeão mundial se classifica para Londres 2012). Mas num plano mais amplo, era a chance da afirmação para uma geração que não somente já deveria ter duas olimpíadas no currículo, como começa a virar piada para o torcedor comum, que se acostumou com o fato de que a) nunca mais ganhamos nada importante, b) não aparecemos mais na tv aberta, em nenhum âmbito e c) não participamos, com o time masculino, há três edições da maior festa do esporte.

Pressão? Imagina...

Pela frente tínhamos só a base da geração que foi prata no mundial de 2002 e ouro olímpico em Atenas 2004 (além do quarto lugar no mundial de 2006). Que, mesmo sem Ginóbili e Nocioni, ainda é um dos times mais respeitados (e mais time) do mundo.

E o que fizemos?

Começamos com Splitter no banco e Guilherme marcando Scola, para surpresa geral da nação. Uma decisão surpreendente e interessante de Rubén Magnano, que decidiu sacrificar um para poupar o outro. Scola fez sete pontos em dois minutos, Guilherme saiu com duas faltas com pouco mais de dois para o fim e Delfino, mesmo marcado por Alex, fez a festa da linha dos 3, com nove pontos no período – mesmo número do capitão argentino. Pra nossa sorte, Leandrinho e Huertas, inspirados no ataque, fizeram dez cada. E o quarto terminou 25 a 25. Um bom começo.

Magnano só trouxe outra cara nova do banco a cinco minutos do fim do segundo quarto, quando trocou Alex por Marcelinho – a Argentina, à essa altura, vencia por 34 a 30 e Sergio Hernández também só havia utilizado sete jogadores. Aí nosso técnico trocou Huertas – que já fazia uma partida estupenda – por Nezinho... Guilherme pegou a terceira falta... E a coisa só não desandou porque Marcelinho nos manteve no jogo com duas boltas de 3 e Magnano trouxe Huertas de volta rapidinho. Nosso armador fechou o primeiro tempo com um lance de quatro pontos que levantou a torcida brasileira, espalhada pelo ginásio, e a turca, que nos apoiava. Se a atuação dele, sua melhor pela seleção (18 pontos!), nos enchia de esperança, as três faltas de Leandrinho preocupavam, mesmo com a vantagem no intervalo – 48 a 46. Jogão. Jogaço.

Por conta disso, Magnano voltou para para o segundo tempo com Marcelinho em seu lugar e Splitter no de Guilherme. Como é bom ter alguém como ele no comando. Chegamos a abrir sete no placar. Mas pecamos ao continuar deixando Delfino jogar – e jogou muito o armador argentino hoje. Talvez por isso, Magnano só tenha posto Leandrinho de volta a um minuto do fim do quarto, que terminou empatado por 66 a 66.

Aí no último.. prefiro ir logo para os minutos finais. Porque faltando 3:15, nós perdíamos por apenas dois - 81 a 79 - quando permitimos que Scola, o dono do jogo, fizesse 6 pontos seguidos. Ora, todo mundo sabia que, na hora da decisão, o negócio seria pará-lo, não? Quatro dias focando nisso, treinando isso, pensando em como, com quem... E ele ainda faria outros quatro depois, para terminar com 37. E chutando 14 de 20 bolas, sem um único erro no último quarto.

Nós? Bem, nós desperdiçamos uma bola tola com Leandrinho, faltando 44 segundos, quando perdíamos por três. Quem a roubou? Scola. Que abriria cinco no ataque seguinte, selando o destino da partida - que terminou com a vitória deles por 93 a 89. Não foi só o erro do Leandro, claro. Embora ele realmente tenha tido um peso absurdo - ali, estávamos no jogo, quando ele se enrolou e perdeu a bola, não estávamos mais. Mas o que fica marcado, de novo, é que temos um bom time que ainda não sabe decidir seus jogos. Foi assim que deixamos de virar manchete mundial contra os EUA, foi assim que deixamos de vencer os Eslovenos - o que teria nos feito jogar contra a fraca Austrália nas oitavas - e foi assim que perdemos hoje.

Fracasso? Depende do ponto de vista. Não para mim.

Jogamos bem nossas últimas quatro partidas no mundial. Tivemos a afirmação de Huertas como o comandante da equipe em quadra - hoje ele foi um monstro, com 32 pontos. Demos mais um passo no desenvolvimento de jogadores como Varejão e Splitter. E Magnano teve a chance de conhecer este grupo, saber com quem pode e com quem não pode contar daqui pra frente.

Há o outro lado, claro. O mesmo Huertas, hoje, só deu duas assistências. E apesar de ter parecido frio como gelo (hoje realmente foi), mostrou aqui em Istambul ainda se desequilibrar com certa facilidade por conta de erros de arbitragem e, principalmente, dos companheiros. Splitter, tão alardeado pelo ótimo trabalho na Espanha, ainda está a léguas de ser um pivô dominante - nem mesmo na defesa ele é. Ânderson, peça importantíssima desse grupo, acabou prejudicado pela torção no tornozelo. Leandrinho fez um péssimo mundial e precisa aprender a pensar antes de executar, principalmente nos momentos decisivos. Marcelinho, Alex e Guilherme deixaram claro para o técnico argentino que são nomes fixos para o restante do ciclo olímpico. Já Nezinho, Murilo, Marquinhos e J.P. certamente não impressionaram o treinador.

Então o que fica deste 7 de setembro de mais uma tristeza para o basquete brasileiro?

Fica o orgulho de termos jogado bem, sim, contra um dos melhores times do mundo, que é a Argentina. Fica a lembrança boa do que fizemos contra os americanos e a ruim do que poderíamos ter feito contra a Eslovênia. E fica, sobretudo, a esperança de que haja continuidade no treinamento e formação dessa seleção sob a batuta de Rubén Magnano, o homem que pode nos levar de volta aos bons tempos do nosso basquete.

O resto é o resto.

O jogo é jogado. Um ganha, outro perde.

O importante é sair de cabeça erguida de quadra, como fizemos hoje.

sábado, 4 de setembro de 2010

Don't Believe The Hype.

O Public Enemy já alertava, há vinte anos.

Tudo começou em 2005, quando, aos quatorze de idade, Ricky Rubio se tornou o mais jovem jogador a atuar na ACB, a liga profissional espanhola, segunda mais forte do mundo. Eu ouviria falar dele pela primeira vez um ano depois. Leria, na verdade – Lang Whitaker, da SLAM, um de meus gurus quando o assunto é basquete, seria o responsável por levar o então jovem armador do Joventut Badalona ao conhecimento dos americanos e de fanáticos como eu.

A performance inacreditável na final do europeu sub-16, contra a Rússia, em 2006 – 51 pontos, 24 rebotes, 12 assistências e 7 bolas roubadas, forçando a primeira de duas prorrogações com um arremesso do meio da quadra – dava credibilidade ao burburinho. Não parecia mesmo hype. Naquele torneio, Ricky teve dois triple-doubles e um quadruple-double. Gostaria muito de linkar um vídeo da final, mas aqui na Turquia o You Tube é proibido (sério).

Muita coisa aconteceu desde então. Aos vinte anos, ele já possui uma prata olímpica, um título europeu e um da Euroliga. Mas o fato é que, aqui em Istambul, tem sido apenas mais um.

Números são frios, mesmo no basquete. Nem sempre traduzem a verdade. Mas os dele, nos cinco jogos da primeira fase, não condizem com a fama – médias de 5 pontos, 6.2 assistências e só 28% nos arremessos, com pífios 9% nas bolas de 3. Mais que estes, dois outros chamam a atenção – 3 vitórias e 2 derrotas da Espanha, num grupo que tinha Nova Zelândia, Canadá, Líbano (vitórias), Lituânia e França (derrotas). Contras os libaneses, em 26 minutos em quadra, Ricky saiu zerado.

Essa campanha irregular – e um possível corpo mole da Grécia no último jogo da fase de grupos, contra a Rússia – fizeram com que espanhóis e gregos se cruzassem logo nas oitavas aqui em Istambul, reeditando a final do mundial passado. Ótima chance para o garoto tirar minha má impressão (e que fique claro que já vi Ricky jogar inúmeras vezes pela tv na liga espanhola, em olimpíadas, no europeu, na Euroliga - muitas delas de forma excepcional). Mas hoje, novamente, não foi o caso.

A Espanha venceu. Nem jogou tão bem, mas teve uma senhora ajudinha do time grego, que chutou 7 pra 23 da linha dos 3 e - meu Deus! - só 44% da linha de lances livres. Com aproveitamento assim, seria mesmo complicado vencer os atuais campeões, que, aliás, não perdem para o adversário há cinco anos. Ricky jogou 27 minutos, o que é sua média aqui. De novo foi mal nos arremessos - 2/6, com 0/2 dos 3 (acumula 1/13 no campeonato) para 6 pontos, 6 assistências e uma bola despediçada.

Ricky Rubio é uma farsa, então? Claro que não. Basta rever a final olímpica contra os americanos ou algumas de suas partidas nos playoffs da Euroliga ou da ACB para saber que há muito basquete no garoto magrelo de 1,92 m. Mas daí a apontá-lo como um fenômeno, há uma distância enorme. Fenômeno, quem tem mostrado que é aqui em Istambul é Kevin Durant, outro garoto (22 anos). Ricky é um jogador em construção. Que hoje, aliás, tomou decisões acertadas nos minutos decisivos contra os gregos e foi frio na hora de converter aqueles dois lances livres no fim.

Mas não à toa ele decidiu esperar mais um tempo para dar o salto para a NBA. Se engana quem pensa que foi apenas por ter sido escolhido pelo Minesotta Timberwolves, um dos piores times da liga. Ele não está pronto.


Há serviços que não nos atendem – na prestação e no atendimento – mesmo quando pagamos caro por eles. Operadoras de telefonia móvel em geral, a NET, em especial... e há aqueles que não deveriam nos atender além do serviço em si, visto que são gratuitos.

Como o Google.

Ontem, enquanto reorganizava minhas contas do Gmail, cometi um descuido em meio a tantos formulários para deletar uma delas, e acidentalmente excluí o Tudo Bola. Qual não foi meu pânico quando me dei conta... Quatro anos de textos, entre Uol Blog e Blogger, perdidos para sempre! Primeiro tentei o suporte, mas já esperava que não houvesse, afinal, os principais serviços do Google são de graça... tentei a ajuda, através do fórum do próprio Blogger... nada. Apelei para fóruns outros, chegando a bater papo com geeks americanos, apenas para ter a mesma resposta – no máximo, conseguiria recuperar alguns textos, nunca todo o conteúdo. Fui dormir, já de madrugada, arrasado.

Neste sábado, pela manhã, o desespero me fez apelar. Usei o único canal de comunicação do Google, por onde eles recebem denúncias de pornografia, spam etc. Fui sincero no formulário e expliquei que havia apagado meu blog acidentalmente, que era conteúdo jornalístico de quatro anos, com textos que significavam muito para mim... Mas não tinha muita esperança.

Eis que, quando chego aqui na Sinan Erdem Arena e entro no messenger pra falar com meu amor, ela me dá a notícia de que tinha acabado de acessar o blog! Entrei imediatamente e estava tudo lá. Abri a conta que havia deletado e lá estavam também todas as mensagens que não mais desejava na caixa de entrada.

O mais engraçado é que, ontem mesmo, um dos telões gigantes de Times Square exibia o vídeo de uma ONG criticando a política de privacidade do Google, usando a imagem do CEO da empresa, Eric Schmidt, como um sorveteiro que já sabe os sabores favoritos de cada criança antes mesmo do pedido. “O Google sabe mais sobre nós que agências do governo”, alertava o vídeo.

Bem, depois de hoje, quando alguém, sabe-se lá em que lugar do mundo, resolveu meu problema em poucas horas, o Google pode perguntar o que quiser sobre minha vida que eu respondo.

E não falem mal da empresa perto de mim...

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Melhor Que Da Última Vez.

Vencemos a Croácia e vencemos bem. Estamos entre os dezesseis melhores do mundo, resultado melhor que o do último mundial, no Japão, quando terminamos na décima-nona posição - nossa pior participação na história.

Tudo que fizemos de errado contra a Eslovênia, não repetimos hoje - principalmente na defesa. Mas não só. Trabalhamos a bola com mais calma, saímos com velocidade nos contra-ataques quando foi possível e demonstramos até uma incomum consciência na hora de chutar dos 3 - foram 10 de 19 arremessos, poucos deles forçados. Marcelinho voltou a ser fundamental (e cestinha), Alex foi um monstro e Leandrinho jogou de forma mais controlada. Ânderson, mesmo ainda sentindo o tornozelo, foi decisivo pelos 12 rebotes, quatro deles no ataque, compensando uma atuação mais apagada de Tiago, que ficou apenas 16 minutos em quadra. Tudo isso nos permitiu abrir uma boa vantagem e administrá-la no fim. Magnano mostra, a cada jogo, que nunca foi tão acertada uma escolha de técnico para a seleção brasileira.

Agora teremos quatro dias de descanso e treino. E a Argentina pela frente nas oitavas. Que seja melhor que da última vez em que realmente valeu algo.

Naquele primeiro de setembro de 2007 fazia um calor dos infernos em Las Vegas. Logo no início, Nenê sentiu a panturrilha e foi forçado a assistir ao restante do jogo do banco, de onde Lula Ferreira parecia não ter mais nenhum comando sobre seu time. Apesar disso, viramos o primeiro tempo na frente, 43 a 35. Jogávamos bem. Mas tivemos um apagão. Como o de anteontem, contra a Eslovênia. Perdemos o terceiro quarto por 30 a 13. O jogo por 91 a 80. E a vaga direta para Pequim, que ficou com nossos vizinhos.

Naquela partida e naquele torneio, Scola foi a diferença. Poucas vezes vi alguém jogar tanto. Mesmo com o timaço americano, que tinha Kobe, LeBron, Carmello e tantos outros, ele foi escolhido o MVP. Aqui em Istambul, Scola está jogando tanto ou mais que em Las Vegas, onde a seleção argentina não tinha Ginóbili e Nocioni, como agora.

Mas nós não tínhamos Magnano.

Hora dele mostrar que, como criador deste time, sabe melhor que ninguém os caminhos para derrotá-lo.


Se as cheerleaders russas têm presença garantida até o fim do mundial, a seleção delas deu azar e pode dançar nas quartas, quando provavelmente enfrenta a americana. As oitavas começam sábado com dois jogaços - Sérvia x Croácia, muito mais pela rivalidade, pois os sérvios têm muito mais time, e Espanha x Grécia. No domingo, outra partida que promete, entre Turquia e França - que hoje surpreendentemente foi derrotada pela Nova Zelândia.

Quem vencer o clássico Brasil x Argentina pega a Lituânia, que não perde para a China, nas quartas.

Vai começar o mundial.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A Tal Da Hora H.

Meu amigo Fábio Balassiano, do ótimo blog Bala na Cesta, fez o levantamento - nos últimos sete anos, em jogos decididos por seis ou menos pontos, a seleção brasileira havia perdido todos.

Bem, agora são oito.

Depois da derrota para os americanos, na última bola, hoje perdemos para a Eslovênia, por 80 a 77, num jogo chave para nossas pretensões no Mundial.

Basquete é um jogo de detalhes em que você não pode justificar uma derrota por três pontos com base neles. Não é como no futebol, em que um lance específico pode ser capital para o resultado. Então, não dá pra falar daquela bola que o Alex deixou escapar no contra-ataque (e como jogou bem ele hoje, muito na defesa) ou de um dos pombos-sem-asa do Leandringo na hora errada (e como tem sido individualista ele...). É muito mais lógico - e é o justo - dizer que perdemos o jogo no segundo quarto, quando uma pane ofensiva de sete minutos deu o placar de 24 a 12 para o adversário no período.

Mas aí eu lembro da bola que o Balassiano levantou... e chego à conclusão de que, nos momentos decisivos, a gente continua não sabendo o que fazer.

De que adianta uma reação como a do último quarto, quando fizemos 15 pontos seguidos (11 do Marcelinho, que mudou o jogo, inclusive com sua defesa, com duas roubadas) se, nos minutos finais, quando se decide uma partida, não temos organização? Aquela bola sem nexo do Leandrinho, a 3:14 do fim, o que é? Falta de inteligência dele ou de comando do banco? Por que, nessas horas, a impressão que fica é que não temos um time, mas sim cinco caras em quadra querendo resolver, cada um da sua maneira? Naquele momento, perdíamos só por 5... Pouco depois, lá estava de novo o Leandro partindo pra dentro do garrafão, com tempo de sobra no relógio, pra mais uma bola desperdiçada...

Não vou nem entrar no mérito da nossa defesa, outra vez vacilante e desatenta hoje, principalmente no perímetro, deixando o Lakovic chutar 6 pra 11 de fora... O que nos falta é jogar, nos momentos decisivos, como joga a Argentina, desde a época do próprio Magnano - com cada um sabendo o que pode e o que não pode, o que deve e o que não deve fazer.


Mais alguns pitacos sobre hoje:

- Eram uns 3 mil eslovenos na Abdi Ipekci arena hoje, empurrando sua seleção o tempo todo e vaiando a nossa a cada posse. Não é desculpa, claro, mas quem já jogou, mesmo na base ou num intercolegial no ginásio do adversário, sabe a diferença que isso faz. E a transmissão da TV, de forma alguma, mostrou o quanto eles fizeram barulho.

- Enquanto nosso time não tiver arremessadores consistentes, Marcelinho terá vaga na seleção. Perdemos, mas ele, de novo, mostrou que não se omite (20 pontos, 5/10 com 4/8 de 3 e 3 roubadas, em apenas 17 minutos).

- Novamente Tiago foi muito bem, apesar da ótima atuação do Brezec, homem que ele marcou a maior parte do tempo. Aliás, o pessoal em Milwaukee, se estiver acompanhando o mundial, deve estar otimista para a próxima temporada - ele, Delfino e Ilyasova estão jogando bem. Ok, o Brezec foi só hoje...

- Pra compensar, Leandrinho, de novo, esteve muito mal - chutou 6 pra 18, deu só uma assistência e desperdiçou quatro bolas em 36 minutos (foi quem mais tempo esteve em quadra).

- Huertas saiu com cara de poucos amigos, provavelmente por ter ficado a maior parte do último quarto no banco (onde começou e de onde só saiu a 3:12 do fim). Eu sei que, quando um time reage, o técnico, quase por obrigação, mantém quem entrou em quadra. Mas a reação de hoje teve as digitais do Marcelo, não do Nezinho, que errou uma bandeja ridícula num contra-ataque de três contra um (mostrando zero domínio com a esquerda e, mais que isso, muito nervosismo, de novo). Magnano, aos poucos, vai vendo com quem pode contar para o pré-olímpico. Ou, pelo menos, assim eu espero...

- Agora é vencer a Croácia. Mas com ou sem a vitória, cruzaremos com Argentina ou Sérvia nas oitavas. Nada animador, infelizmente. Mas formar um time é isso, conviver com adversidades.